Para ver as figuras acesse: http://www.gelbc.com.br/pdf_jornada_2011/luiz_zanotti.pdf
O LAMPIÃO DE FERNANDO VILELA: NEM HERÓI, NEM FACÍNORA... DEMASIADAMENTE HUMANO.
Luiz Roberto Zanotti
RESUMO: Este artigo pretende analisar a personagem Lampião no romance gráfico Lampião e Lancelote de Fernando Vilela com enfoque em sua ambivalência. Lampião, uma das personagens mais retratada pelas artes brasileiras, geralmente é caracterizado ou como um herói ou como um facínora, ou seja, enquanto para alguns autores, o cangaceiro é apresentado somente através de seu lado positivo de um revolucionário em luta contra o coronelato, para outros, o seu lado negativo de um bandido sanguinário é ressaltado. Estas duas abordagens fazem como que a personagem perca toda possibilidade de uma análise multi-interpretativa, o que a aproxima de uma visão cartesiana, onde se procura encontrar a verdade atrás de uma certa aparência.
Palavras-chave: Cordel, Romance gráfico, Lancelote.
A capa de Lampião e Lancelote (vide figura 1) já indica a contraposição que se seguira por todo o romance entre a predominância da cor prateada para Lancelote e a paisagem medieval inglesa, e a cor dourada para Lampião e o sertão nordestino.
FIGURA 1
Como veremos no decorrer deste estudo, a cor prata, para Ad de Vries (p. 425) significa a pureza, a inocência, uma consciência pura, como pode ser verificado, na utilização do cálice de prata nas cerimônias religiosas, e também sabedoria (a língua do justo tem a cor prateada). Além disso, a cor prata lembra o feminino, a lua e a noite em oposição ao dourado do masculino, do dia e o sol.
Para Gaston Bachelard (2002, p. 9), esta diferença entre o feminino e o masculino também se reflete nos elementos água e fogo, pois o elemento água é mais feminino é mais uniforme e constante que o fogo. Ele simboliza as forças humanas mais escondidas, mais simplificantes, tais quais as forças imaginantes da mente que, no impulso da novidade, escavam o fundo do ser. Como pondera Bachelard (2002, p. 9):
É nela que materializamos os nossos devaneios; é por ela que nosso sonho adquire sua exata substância; é a ela que pedimos nossa cor fundamental. Sonhando perto do rio, consagrei minha imaginação à água, a água é verde e clara, a água enverdece os prados. (...) Não é preciso que seja o riacho da nossa casa, a água da nossa casa. A água anônima sabe todos os segredos. A mesma lembrança sai de todas as fontes.
O elemento fogo, ainda segundo Bachelard (1999, p. 2-3), associa-se às crenças, às paixões, ao ideal, à filosofia de toda uma vida. Deve-se tomar cuidado com um pensamento eminentemente objetivo, sob o risco de jamais se alcançar uma atitude objetiva. O fogo conduz sempre ao aprisco poético, onde os devaneios substituem o pensamento, onde os poemas ocultam os teoremas. Porém, Bachelard pergunta: “O que é o fogo?”, e ele mesmo responde que, ainda hoje, as intuições do fogo permanecem presas a uma pesada tara e, apesar de toda racionalidade científica, ele ainda está presente em nossa alma (ou se preferirem psique). Existe ainda uma secreta idolatria pelo fogo, uma psique que guarda os vestígios do homem velho na criança, da criança no homem velho, do alquimista no engenheiro.
Em A psicanálise do fogo, o filósofo busca explicar as seduções que falseiam as induções, a valorização imediata da substância, o caráter objetivo e subjetivo do fogo, seus valores não discutidos, seu caráter duplo que,
ao subir das profundezas da substância se oferece como amor, e torna a descer à matéria e se oculta, latente, contido como o ódio e a vingança. Dentre todos os fenômenos, é realmente o único capaz de receber tão nitidamente as duas valorizações contrárias: o bem e o mal. Ele brilha no Paraíso, abrasa no Inferno.” (BACHELARD, 1999, p.12)
Com relação ao romance propriamente dito, a primeira aparição é imagem (figura 2) de uma Inglaterra (na época Bretanha) medieval, prateada e sombria, um território dividido em reinos independentes, onde alguns registros históricos apontam para um guerreiro chamado Arthur, que posteriormente entraria gloriosa e definitivamente para a história, sob a mascara do famoso rei Arthur e seus cavaleiros da Távola Redonda.
FIGURA 2
As primeiras referências a Arthur vêm do norte da Bretanha. Ele teria nascido por volta de 475, na pequena aristocracia da província. Com exatos 20 anos, montou um grupo de cavaleiros que saqueava a Cornualha e Devon. Naquela época, o seu bando não passava de um exercito pessoal, até o momento em que começaram as campanhas realmente sérias, no inicio do século VI.
Villela, assim como a maioria dos cantadores nordestinos, antes de mais nada, pede licença para a falar do cavaleiro Lancelote (figura abaixo) que ele apresenta cavalgando entre castelos medievais. Um cavaleiro bom, nobre, forte e delicado, que não tem medo de enfrentar nenhuma batalha.
Lancelot é um dos cavaleiros da Távola Redonda do Rei Arthur, mas parece não possuir nenhuma ligação com a realidade inglesa da época e, portanto, é fruto da ficção, mas uma ficção antiga e com profundas implicações históricas, pois Artur e os seus cavaleiros estão dentro do imaginário inglês, e ainda hoje, não há maior honraria do que ser nomeado cavaleiro pela rainha da Inglaterra.
Na sequencia (figura 3), Villela traz Guinevere e Morgana, duas das principais personagens dos romances da Távola Redonda, que para Jean Markale (p. 40), simboliza a confrontação entre a religião cristã e as práticas herdadas do druísmo num verdadeiro choque de culturas. Guinevere era uma piedosa rainha cristã, enquanto Morgana é uma bruxa vilã que servia para demonizar a religião e os ritos pagãos da cultura celta.
FIGURA 3
Conforme vários textos da época, Morgana seria meio-irmã do rei Arthur e ao longo de toda lenda se esforça para prejudicá-lo, fosse aprisionando-o, fosse fazendo de tudo para matá-lo, a fim de recuperar o poder que julgava usurpado. A rainha Guinevere, esposa do Rei Arthur, era o extremo oposto, com o seu nome em galês Gwenhyfar sendo bastante revelador: “branca aparência”, que remete diretamente à pureza da cor prata.
Para Jean Markale (p. 43), Morgana tinha um sentimento de frustração em relação à esposa do irmão. Ela era apaixonada pelo belo Lancelote e não tolerava que ele fosse o escolhido da rainha. Nesta perspectiva, apesar de Guinevere aparecer como uma anti-Morgana, ela também amava Lancelote apaixonadamente, numa relação adultera, o que obviamente é pouco conforme à idéia de uma rainha católica
O virar da pagina mostra um sertão nordestino dourado (figura 4), dominado pelo sol e pelo gado. Sertão reportado por Euclides da Cunha em Os Sertões que relata a história deste povo sofrido que habita o sertão brasileiro, uma região de terras não cultivadas. Um vasto território onde não havia cercas delimitando as propriedades. As cercas só eram usadas para proteger a roça do gado, e onde os vaqueiros se trajavam com uma indumentária sui generis feita inteiramente de couro (BARROS, 2000, p. 46).
FIGURA 4
A importância do gado que remete a própria origem do sertanejo, pois para muitos pesquisadores, o homem chegou ao sertão deixando para trás o sedentarismo, uma forma de vida inspirada na produção agrícola para iniciar o chamado “ciclo do gado”. Mas esta pecuária tem pelo menos uma grande diferença da pecuária litorânea ou do resto do país. Conforme podemos observar na figura 5, através das imagens dos mandacarus, o sertão é uma região carente de água. Por este motivo, o sertão traz todas as implicações da vida nômade, a necessidade da busca de novos pastos, haja vista, o rápido desgaste nessas áreas semi-áridas. O isolamento característico do homem desta região está ligado a esta forma de criação de gado que não comporta o trabalho massificado. O criador era um homem individualista, autônomo, improvisador e, sobretudo, livre. É importante também observar que, distante da dos traços culturais do sul do Brasil, a personalidade sertaneja também é constituída na indiferença no trato com o sangue devido à predominância da atividade pecuária. “O menino sertanejo muito cedo banhando-se de sangue, ajudando o pai a sangrar o boi ou o bode para o preparo da carne-de-sol” (MELLO, 2005, p. 21).
FIGURA 5
No meio destes mandacarus, Vilela apresenta uma série de cangaceiros, “homens sem temor de risco”, que herdaram a valentia de seus antepassados, uma população que foi obrigada a lutar contra os indígenas locais e até mesmo animais ferozes, ficando isolada e empobrecida.
Na sequencia da ilustração (Figura 6) que se encontra na pagina seguinte, Vilela finalmente apresenta Lampião juntamente com Maria Bonita, sendo fiel à imagem do casal cangaceiro, que bem antes de serem assassinados em Angicos pela patrulha volante, já havia se transformado numa figura lendária no panorama sociocultural brasileiro devido não só aos seus feitos, mas também devido a uma mídia ávida de notícias sensacionalistas e de todo um trabalho literário, onde predominava a literatura de cordel, sem dúvida uma das fontes de referência para o romance.
No que tange aos estudos históricos em relação a esta personagem, eles apresentam uma série de abordagens perspectivas que vão desde a sua apresentação como uma pessoa honesta e trabalhadora, mas que a miséria e a injustiça social fizeram com que embarcassem numa vida de crimes sem volta, até a sua retratação como uma pessoa extremamente violenta.
FIGURA 6
Um fator de suma importância na pesquisa histórica a respeito de Lampião diz respeito à proximidade temporal com o fenômeno, o que significa dizer que foram possíveis a obtenção de entrevistas com uma série de pessoas que tiveram contato real com Lampião. Também é mister de mencionar um grande volume de fotos, filmes e reportagens efetuadas por uma mídia ávida de noticias sobre o cangaceiro. A verdade é que talvez nenhuma outra personagem histórica brasileira tenha sido tão “explorada” como o cangaceiro nordestino.
Todavia, apesar desta propalada proximidade, renomados pesquisadores, tais como, Luitgarde Barros (2000), Frederico Pernambucano de Mello (2005), Rui Facó (1983) e Maria Christina Machado (1978), entre outros, possuem diferentes visões sobre este assunto. Barros e Mello ressaltam o seu caráter ligado ao banditismo , enquanto Machado e Facó Machado apresentam, dentro de uma perspectiva marxista, Lampião não como um fato isolado, mas sim como o resultado de uma época em que se processava a luta surda, empreendida pelo vaqueiro contra o senhor da terra. (MACHADO, 1978, p. 6).
A jornalista Vera Ferreira, neta de Lampião, em seu livro De Virgolino à Lampião (1999), vai trabalhar esta discrepância entre os historiadores propondo uma história do cangaço onde existam, pelo menos, dois Lampiões:
[...] um (real) que teve a sua existência real, que viveu todas as vicissitudes que um homem a margem da lei experimenta, e outro (mítico) que foi criado a partir de cada façanha efetiva ou inventada. Este é um produto coletivo que vai cada vez mais sobrepujando o primeiro. Há uma abundante literatura sobre o cangaço, mas poucos oferecem um quadro histórico mais ou menos completo. Tem-se praticado em torno do cangaço ainda uma espécie de história do tipo tradicional, ancorada nos heróis e nos seus grandes feitos, que faz com que a sua participação no imaginário continue crescendo. (FERREIRA, 1999, p. 10)
Seja lá qual for a perspectiva adotada, todas as biografias de Lampião têm invariância de uma ordem de dados, também salientados pelos informantes: era um exímio cavaleiro. Almocreve, cruzava as fronteiras de Pernambuco, Alagoas e Sergipe, cujos caminhos percorria com intimidade, conhecendo como a “palma da mão” a rede de rios e riachos que abastecia o Moxotó e o Pajeu. Palmilhava os pés de serra, grotas e socovões, deslocando-se na catinga com a naturalidade dos experimentados vaqueiros do Pajeú. (BARROS, 2000, p. 85)
Porém, se o fato de Lampião tiver sido uma criança pobre é aceito de uma maneira geral, mesmo esta infância e juventude de uma criança sertaneja, passa a ser ideologizada. Maria Machado afirma que ele desde muito menino, pelo fato de ter assistido muitas rixas no sertão, onde o coronel sempre levava a razão, já criava conceitos cada vez mais rígidos contra os potentados. Machado apresenta como argumento um poema atribuído a Lampião:
Se os homem desse aos vivente
O que açambarca os banqueiro
E dividisse as quintanda
E tudo dos masoquero
Neste mundo de miséria
Não havia cangaceiro (MACHADO, 1978, p. 36)
Esta opção de obter a justiça através da violência, que para Machado é causada por uma revolta infantil só vai fazer crescer com o processo de desenvolvimento de Lampião. Outro fator preponderante na formação do cangaceiro está na sua origem numa região atormentada pelas secas, uma paisagem árida. Neste ambiente sujeito à longos períodos de estiagem, acabam por empurrar muitos dos seus habitantes para o cangaço como meio de vida.
Mello (2005, p.190) chama a atenção para a correlação entre a seca, as agitações políticas e a rapinagem cangaceira, pois a seca promovia a desarticulação da incipiente estrutura governamental. O pesquisador oferece como argumento o editorial do Jornal do Recife, edição de 5/12/1926, onde é relatado que nos sertões de Pernambuco estavam surgindo outros bandos, que assim como o bando de Lampião, estavam fortemente armados e municiados, depredando e arrasando tudo nas suas passagens sinistras.
FIGURA 7
O dourado dá lugar á cor preta, que para Ad Vries (p. 50) está relacionado com a sombra, com a noite e com própria morte. A morte que, como vimos, está impregnada na cultura sertaneja. A noite, por sua vez, para as pessoas que não têm uma casa para morar acaba por se transformar num verdadeiro animal selvagem que vai causar o medo (BACHELARD, 2003, p. 172).
Naquela época, o panorama não poderia ser mais sombrio e mortal, com os coronéis, donos de grandes latifúndios no Nordeste, com total autoridade sobre os sertanejos e com poderes de vida e morte sobre eles não podiam permitir que a sua autoridade fosse colocada à prova: qualquer tipo de agressão gerava uma resposta ainda mais violenta, como por exemplo, exterminar totalmente a família do agressor.
Vilela, assim como Machado (1998, p. 37), mostra um Lampião e seus cangaceiros como homens em luta contra o coronelato: “homens que lutavam porque não chegaram a conheceram a justiça. Fizeram, então, a justiça com as próprias mãos. Eram os fora-da-lei. Mas onde realmente estava a lei? No bolso dos ricos ou no porrete do coronel?”
A cena seguinte volta para a Inglaterra que, segundo o autor, vivia nas trevas da Idade Média, o que é realçado com a utilização da cor preta que predomina metade da ilustração. Lancelote vai cavalgando pelas terras do Vale do Lago Sagrado onde vivia a feiticeira Morgana, que frustrada da possibilidade de tê-lo para si, lançou um feitiço nop formato de uma nuvem branca, pela qual se adentrou o cavaleiro (Figura 7), passando por um portal do tempo e chegando ao sertão nordestino.
FIGURA 8
O cavaleiro passa a cavalgar pelo sertão nordestino até o momento em que se defronta com Lampião (Figura 9). Este encontro se dá primeiramente pela mistura das cores prata e ouro. Lampião ao avistar o cavaleiro, em meio ao calor nordestino, ordena-o a parar, iniciando um diálogo dominado por insultos mútuos.
Os encontros de Lancelote e Lampião, e da Era Medieval com o sertão, promovidos por Vilela pode ser também verificado através da literatura de cordel. Como sabemos, a literatura de cordel é uma espécie de poesia popular que é impressa e divulgada em folhetos ilustrados com o processo de xilogravura. Escritos em estilo épico, os versos do cordel, naturais filhos das gestas medievais, dos romances de cavalaria transplantados da Península Ibérica, fecundaram a língua e o imaginário das populações sertanejas (BARROS, 2000, p. 14).
FIGURA 9
Os cordéis chegaram ao Brasil no século XVIII, mas hoje, ainda é possível, encontrá-los sendo vendidos em algumas regiões pelos próprios autores, sendo que, algumas vezes, estes poemas são recitados em público, ou, até mesmo acompanhados pelo som das violas. A sua especificidade advinda de ser uma importante fonte de memória popular vai influenciar vários escritores nordestinos, tais como: João Cabral de Melo, Ariano Suassuna, José Lins do Rego e Guimarães Rosa.
Estes pequenos livretos são escritos através de uma linguagem simples, com uma tendência de se usar os recursos humorísticos no tratamento de fatos da vida cotidiana da cidade ou da região, tais como: festas, disputas políticas, fatos pitorescos, assuntos religiosos, atos de heroísmo e vilania. Percebe-se, todavia, que não obstante a aparente simplicidade da linguagem, muitos poemas de cordel possuem uma linguagem rebuscada, muito distante da parcimônia de palavras, um elemento típico da sociedade sertaneja.
Luitgarde Barros (2000, p. 14), apresenta como hipótese para este fenômeno, a influência da própria literatura em seu estilo épico, proveniente das gestas medievais e dos romances de cavalaria transplantados da Península Ibérica, que fecundaram a mãe agreste, a língua e o imaginário das populações sertanejas. Ainda, segundo Barros (2000, p. 156), no processo de heroificação do cangaceiro, ainda é importante lembrar a contribuição trazida pelo cordel no sentido da aproximação dos feitos do cangaço às façanhas medievais que são relatadas no livro História de Carlos Magno e dos Doze Pares de França que durante tanto tempo circulou pelo Nordeste, inspirando cantores e poetas populares. Os cordelistas adaptaram alguns elementos advindos das gestas medievais à catinga como príncipes vestidos com gibão, pelejando pelos sertões nas derrubadas de boi, numa luta de trabalho e força esperando alcançar com a vitória o premio cobiçado, uma donzela:
A travessia de setenta e sete léguas de catinga, enfrentando onça e boi brabo, levaria um valente a um distante castelo onde vivia uma princesa. Amarrando o cavalo no copiá de uma taipa, o rapaz olha ao longe a transfiguração da princesa, filha do fazendeiro. As moças direitas, filhas de homens de bem, são princesas daqueles homens das armas, ainda presos a alguns antigos valores (BARROS, 2000, p. 157).
Esta aproximação medieval com Carlos Magno é também lembrada por Curran (1988, p.69), que compara o modelo narrativo do herói-cangaceiro Antonio Silvino de Leandro Gomes de Barros com a personagem Carlos Magno no livro medieval. O poeta tirou dois episódios para criar dois clássicos do romance de cordel: A Batalha de Oliveros com Ferrabraz e A prisão de Oliveros.Câmara Cascudo cita casos de sertanejos cujos filhos se chamam Carlos Magno, Rolando ou Oliveros. Na literatura de cordel, o vaqueiro, o valente sertanejo e o cangaceiro têm traços de Carlos Magno ou de seus cavaleiros, embora usem chapéu de couro, o gibão e as perneiras do interior, em vez de armaduras de da espada de aço. Veja-se o que diz Antonio Silvino nesta cena de Gomes de Barros que lembra Roncevalles:
Eu choro a falta que faz-me
Todos os meus companheiros
Qual Carlos Magno chorou
Por seus doze cavaleiros.
Nada me faz distriar,
Não deixarei de seguir
A morte dos cangaceiros (GOMES DE BARROS citado em CURRAN, 1988, p. 69)
Num contexto, tanto medieval, quanto sertanejo, onde a honra é a qualidade mais importante para um homem, a disputa verbal entre os dois cavaleiros, como não podia deixar de ser, acaba por se definir pela declaração de guerra, com Lampião formando com seus cangaceiros seu bando dourado, enquanto Lancelote chama todos os cavaleiros do Rei Arthur e até mesmo o mágico Merlin para formar seu bando prateado.
FIGURA 10
Os bandos que num primeiro momento estão separados (Figura 10) entram numa luta feroz e longa que pode ser verificada nas nove páginas seguintes, conforme figura 11.
FIGURA 11
A luta termina através de uma mistura entre o sertão e a Era Medieval, que já observamos nos cordéis, com Lampião numa armadura maior que ele, e Lancelote com os trajes de Lampião. Lampião pega a sanfona e começa a tocar um xaxado em homenagem a Lancelote. Esta ligação do cangaço, e em particular de Lampião com a música, ao trazer consigo a imagem de um cangaceiro possuidor de um lado romântico forte, reforça a figura de Lampião como um homem bom e amoroso que o destino desviou dos caminhos do bem. Esta imagem de Lampião como um homem de bons sentimentos vai receber um reforço a partir da canção Acorda Maria Bonita composta por Volta Seca e registrada em disco fonográfico em 1957.
A luta das nove páginas anteriores é substituída por seis paginas onde todos dançam, desde Lampião com Guinevere, Maria Bonita e Lancelote até o momento em que a feiticeira Morgana desgostosa com o rumo dos acontecimentos, resolve acabar com a festa e através de uma magia colocou todo mundo neste cordel de Vilela.
FIGURA 12
Assim, Vilela consegue quebrar a visão dicotômica herói-bandido de Lampião relativizando posições pragmáticas na sua obra a partir da escolha da diversidade de cores/símbolos (cores preta, dourado e prata), da utilização de várias linguagens (verso, sextilha do cordel sertanejo, prosa, narrativa épica), de recursos gráficos (carimbo e xilogravura), ou ainda de elementos intertextuais. Para os defensores de Lampião como um bandido onde só podemos encontrar a violência e a atrocidade, ele mostra o cangaceiro com pouca paciência e que por qualquer motivo fútil, como a discussão com Lancelote, parte para o caminho da violência. Para os que acreditam na “boa índole” ele oferece o lado humano de um indivíduo que não foi mais violento do que o cavaleiro Lancelote, um exemplo paradigmático de herói medieval, e assim como o cavaleiro é capaz de ter um grande amor por uma mulher. Neste aspecto aparece a imagem de um nordestino generoso e justo, cruel e tolerante, prudente e arrojado, que soube com esse comportamento meio contraditório manter a ordem no seu bando. Um cangaceiro que era um líder, mas que apesar de ser um condutor duro e inflexível, foi capaz de amar com ternura uma mulher, a quem foi fiel e companheiro.
Referências bibliográficas
BACHELARD, Gaston. A psicanálise do fogo. São Paulo: Martins Afonso, 1999.
_______O ar e os sonhos. São Paulo. Martins Afonso, 2001.
_______A água e os sonhos. São Paulo. Martins Afonso, 2002.
_______A terra e os devaneios do repouso. São Paulo. Martins Afonso, 2003.
BARROS, Luitgarde O. C. Derradeira Gesta, Lampião e Nazareno: Guerreando no Sertão. Rio de Janeiro: Mauad, 2000.
CURRAN, Mark. História do Brasil em cordel. São Paulo: Epusp, 1998.
DE VRIES, Ad. Dictionary of Symbols and Imagery. Londres: Nort-Holland, 1974.FACÓ, Rui. Cangaceiros e fanáticos. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1983.
FERREIRA, Vera e AMAURY, Antonio. De Virgolino a Lampião. São Paulo: Idéia Visual, 1999.
Markale, Jean. A cristianização dos druidas. História Viva. São Paulo, volume V, páginas 41-43, março 2005.
MACHADO, Maria Christina Matta Machado. As táticas de guerra dos cangaceiros. São Paulo: Brasiliense, 1978.
MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil. São Paulo: A girafa, 2005.
VILELA, Fernando. Lampião e Lancelote. São Paulo: Cosacnaify, 2007.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Letras de O natal do Caranguejo
1.Guaratuba
Uma coisa eu vou te dizer
Vi gaivota a voar (AR)
Senti o verde da vida
De papo pro ar (AR)
O morro lá tem vez
O cristo que vive lá
O azul desceu do céu
Pra viver no mar (Água)
De Guaratuba
Crise de consciência
Vontade de trabalhar
Fiquei quietinho num canto
E deixei a vontade passar
Um sabia me falou
Malandro se liga no mar
Pra que trabalhar
Crise de consciência
Vontade de trabalhar
Fiquei quietinho num canto
E deixei a vontade passar
Atravessando a baia (Água)
Lembrei da outra Bahia
Do poeta Jorge Amado
Velho capitão de areia
Sentindo a brisa do mar
Seu mar
Em noite de lua cheia
Quem olhar para o céu verá
Uma nova estrela
2.Onde andará homem de barro
Onde andará homem de barro
Tanta liberdade em seu chapéu
Mas eu fui feito agrilhoado
nas rimas
Um cavalinho de carrossel
Onde andara homem de barro
Pra quebrar as correntes
e abrir as portas do céu
Mas eu ando tão desesperado
A sociedade me ofereceu
Felicidade
Só que não deu
3.Miguel
Beiços partidos, coração rasgado
Menino fica a esperar
A mão enfiada na lama
Nenhum pensamento
É tempo de esperar
Ver um novo mundo crescer
Debaixo desta pele tão preta
Preta
A bola de meia, sorriso aberto
Não dá mais para esperar
Viver a vida correndo
Atrás de caranguejos
Na esperança de encontrar
Ver um mundo novo crescer
Debaixo desta pele tão preta
Preta
4. Pelas estradas do mar
Amanheceu e eu
Vou sair com a jangada pelo mar
Que é a minha estrada
Meu corpo acostumado na aventura
Desta linda arquitetura
Encontro do céu e o mar
Vou ter que pular, eu vou
Vou ter que remar, eu vou
Vou ter que pular
As ondas encrespadas deste mar
Vou ter que sonhar, eu vou
Vou ter que voar,eu vou
Pelas ondas encrespadas deste mar
5.Castañeda
Vejo o meu corpo se abrir
Como uma fonte a jorrar
Numa alucinante aventura
De Castañeda
Preciso achar meu lugar
Quantos sonhos perdi
Por não saber mais sonhar
Quantas vidas vivi
Neste pesadelo de Castañeda
Preciso achar meu lugar
Posso ver acontecer um novo amanhã.
Dentro do meu peito
Posso ver nova primavera?
No meu pensamento
Cobrindo de flores o meu leito
6.Caranguejo
Desamarra a corda do caranguejo
Desamarra a corda do caranguejo
Eu troquei minha paz por um desejo
Comprei a dor e corri pro mar
Desamarra a corda do caranguejo
Desamarra a corda do caranguejo
A minha ruína foi o seu beijo
A minha alegria veio amarrar
Desamarra a corda do caranguejo
A vida passou como um lampejo
Quanto mais procuro, eu menos vejo
Há uma nuvem em meu olhar
Desamarra a corda do caranguejo
Perdido entre as cinzas deste enterro
Paguei com a minh’alma, este meu erro
Deixe as ondas vir me buscar
Luar triste do amor cativeiro
Escravo no ódio deste meu viveiro
Caranguejos no coração canteiro
Deixei a vida e corri pro mar
Vamos acabar com esta doidera
E as lagrimas descalças nesta fogueira
Eu como os rios de Canavieiras
Deixei a vida correr pro mar
Agora que eu sou sua jangada
Quero viver no seu mar
Hace tiempo, donde estay, tan lejo
7.Meu amor
Meu amor foi à vendinha
Comprar umas coisinhas
Pra fazer o nosso jantar
Fiquei esperando e observando
As ondas do mar
Que vão e vem
Não são de ninguém
Que vão e vem
Depois desaparecem
Meu amor voltou da vendinha
Trouxe umas cervejinhas
Pra gente bebericar
Ficamos nos amando
Como as aves do mar
Que vão e vem
Não são de ninguém
Que vão e vem
Depois voam para o alem
8.Adeus Canavieiras
Adeus Canavieiras
Eu vou me embora
Saudades desta terra
Eu vou levar
A terra do caranguejo
A ilha do desejo
O encontro do céu e do mar
Adeus Canavieiras
Eu vou me embora
Saudades desta terra
Eu vou levar
A praia dos tres coqueiros
De todos brasileiros
Da costa do cacau eu vou lembrar
Adeus Canavieiras
Eu vou me embora
Saudades desta terra
Eu vou levar
Atravessando o Rio Pardo
Com tantos amigos ao lado
Feliz, vendo a vida passar
Adeus Canavieira
Eu vou me embora
Saudades desta terra
Eu vou levar
O mar de águas barrentas
As tardes sonolentas
Morenas passam no seu balançar
Adeus Canavieiras e
Eu vou me embora
Saudades desta terra
Eu vou levar
Sobre o Patipe a ponte
Canoas lá no horizonte
Aqui a vida foi feita pra sonhar
9.Iemanja
Tem roda hoje na areia
Canto da sereia
E as ondas do mar
De branco como a lua cheia
O povo da aldeia
Se põe a esperar
Que a jangada de oferendas pule as ondas
Com força de alcançar
A rainha do mar
E o galo preto cantou
Foi quando Iemanja apareceu
Da licença pra sua magestade
Quem canta neste terreiro sou eu
Eu vou me embora
Mas quero deixar o meuadeus
O Homem que viajava
1.Caminho de asfalto
Esse caminho de asfalto
Que trilhamos agora
È tão igual a outros caminhos
E da vontade de dizer
A vida é a mesma
Por um só caminho
Porem a cada momento
Que é vivido e respirado
E que é pó
A vida é a mesma
2.Pela estrada esburacada deste mundo
Caminhando pela noite escura e fria companheiro
Vou pensando a vida não é
Correr atrás do dinheiro
E no fim desta estrada tem alguém me esperando
É gente como eu que vive
Pensando
Estrela que brilha eu vou seguir
Até a estrela que sonha
Eu vou sonhar
Pela estrada esburacada deste mundo
3.My way
my way é outra coisa
my way é diferente
é encontrar na esquina
uma pessoa pedindo esmolas
sem dentes
tirei meu chiclete da boca
e ofereci ao indigente
É tratar das esmolas
dentro de uma sacola de ofertas
migalhas do natal
ter sido formado na escola
jogar tudo pro alto
e fazer carnaval
ganhei tantos presentes
mas nenhum carinho
com tanta gente ao meu lado
eu me encontro sozinho
porque não me fizeram burro
como os todos os outros animais
vou me entristecendo
e sendo passado pra traz
fujo das pelancas da vida
nestes acordes anormais
queria ser Leandro
da dupla com Leonardo
e não precisar ouvir nunca mais
4.Morena do barreado
Onde é que se vai, morena.
Vou lavar roupa no rio
Onde você vai morena
Me esconder deste frio
Mas onde se vai morena
Encher de carne a panela
Não me engane morena
Se esta de namorado
Vai que vai morena
Vai fazer barreado
5.No rabo do cometa
Na frente do edfficio
Esperando um cometa
Passa gente, passa bala
Vara o coração
E aquela esperança que ficou
Nem a bomba de Hiroshima
Pode acabar
Viajando no seu rabo
Conheci muitas estrelas
Dalva, Três marias, Marilin Monroe
6. Coração
Há nessa mesa o que era firme
se desmancha neste copo
há na certeza
uma incerteza muito grande e o remorso
porque palavras e rimas
a gente esquece
num instante
então pra que vou me enganar
o coração é aquilo que a face mostra
mesmo no escuro do bar
eu posso olhar o coração
nessa mesa tão vazia
de amigos e esperança
vejo ela em sua dança
longe do meu olhar
o coração é aquilo que a face mostra
mesmo no escuro do bar
eu posso olhar o coração
7.Velho espantalho
O acaso se tornou o companheiro
Deste velho espantalho
Carta fora do baralho
Coração bem brasileiro
E a sorte evitou este encontro
Rodopiou e seguiu em frente
Passando por toda gente
Num samba bem verdadeiro
E da fé nada temos pra falar
Os anjos caíram na gandaia
Eu no fio da navalha
Jesus Cristo no pandeiro
8.Vampcity
O espectro solar
Dos raios cósmicos ira dizer
A vida continua a mesma
Up & Down
Vou andando, me escondendo
Procurando parecer normal
A vida nesta big Town
Parei no farol vermelho
No radio tocava um velho Rock & Roll
No relógio deu meia noite
Ai, eu me transformei num vampiro
O complexo de Édipo
Não posso evitar
E brinco com estricnina
Amor letal
Bocas, línguas.
Dentro, fora
Vou disparando amor
Na solidão capital
E os seus lábios são vermelhos
Seus olhos me hipnotizam
E eu me perdi nos seus braços
Só pra dizer que é tudo mentira
9.Consolação
Nessa minha loucura
Você não pode dizer
Vendo as luzes da cidade
Sem nada entender
Seu coração me contamina
Neste labirinto
Lugar nenhum pra chegar
Te chamo de puta e você me consola
Com o olhar de mulher menina
Vou vestir meu capacete
Bora, bora, viração
Eu fui feito um estilete
Fui feito pra ferir ou não
10.Para Jaco
Se o meu som foi convidado
quero entrar na festa
há mundos fechados a cadeados
Se o meu som foi olvidado
Olho por uma fresta
Mundos derrubados por pedras
Eles conseguiram me afastar
Para bem longe daqui
Sem ao menos entender a beleza em mim
Mas agora eu estou sentado
Na beira do arco-iris
De onde eu posso compor todas as canções
11.Montes claros
Montes claros, claro o dia
É de manhã
O sorriso da muchacha
Cheiro de hortelã
Na viajem mais um dia
Contaminado de verão
Na estrada curta da vida
Uma nova paixão
Que vem cheia de desejo
Febre mal sã
A loucura de um beijo
Sabor de maçã
Para ouvir alguma delas link http://www.recantodasletras.com.br/escrivaninha/voz/index.php
Uma coisa eu vou te dizer
Vi gaivota a voar (AR)
Senti o verde da vida
De papo pro ar (AR)
O morro lá tem vez
O cristo que vive lá
O azul desceu do céu
Pra viver no mar (Água)
De Guaratuba
Crise de consciência
Vontade de trabalhar
Fiquei quietinho num canto
E deixei a vontade passar
Um sabia me falou
Malandro se liga no mar
Pra que trabalhar
Crise de consciência
Vontade de trabalhar
Fiquei quietinho num canto
E deixei a vontade passar
Atravessando a baia (Água)
Lembrei da outra Bahia
Do poeta Jorge Amado
Velho capitão de areia
Sentindo a brisa do mar
Seu mar
Em noite de lua cheia
Quem olhar para o céu verá
Uma nova estrela
2.Onde andará homem de barro
Onde andará homem de barro
Tanta liberdade em seu chapéu
Mas eu fui feito agrilhoado
nas rimas
Um cavalinho de carrossel
Onde andara homem de barro
Pra quebrar as correntes
e abrir as portas do céu
Mas eu ando tão desesperado
A sociedade me ofereceu
Felicidade
Só que não deu
3.Miguel
Beiços partidos, coração rasgado
Menino fica a esperar
A mão enfiada na lama
Nenhum pensamento
É tempo de esperar
Ver um novo mundo crescer
Debaixo desta pele tão preta
Preta
A bola de meia, sorriso aberto
Não dá mais para esperar
Viver a vida correndo
Atrás de caranguejos
Na esperança de encontrar
Ver um mundo novo crescer
Debaixo desta pele tão preta
Preta
4. Pelas estradas do mar
Amanheceu e eu
Vou sair com a jangada pelo mar
Que é a minha estrada
Meu corpo acostumado na aventura
Desta linda arquitetura
Encontro do céu e o mar
Vou ter que pular, eu vou
Vou ter que remar, eu vou
Vou ter que pular
As ondas encrespadas deste mar
Vou ter que sonhar, eu vou
Vou ter que voar,eu vou
Pelas ondas encrespadas deste mar
5.Castañeda
Vejo o meu corpo se abrir
Como uma fonte a jorrar
Numa alucinante aventura
De Castañeda
Preciso achar meu lugar
Quantos sonhos perdi
Por não saber mais sonhar
Quantas vidas vivi
Neste pesadelo de Castañeda
Preciso achar meu lugar
Posso ver acontecer um novo amanhã.
Dentro do meu peito
Posso ver nova primavera?
No meu pensamento
Cobrindo de flores o meu leito
6.Caranguejo
Desamarra a corda do caranguejo
Desamarra a corda do caranguejo
Eu troquei minha paz por um desejo
Comprei a dor e corri pro mar
Desamarra a corda do caranguejo
Desamarra a corda do caranguejo
A minha ruína foi o seu beijo
A minha alegria veio amarrar
Desamarra a corda do caranguejo
A vida passou como um lampejo
Quanto mais procuro, eu menos vejo
Há uma nuvem em meu olhar
Desamarra a corda do caranguejo
Perdido entre as cinzas deste enterro
Paguei com a minh’alma, este meu erro
Deixe as ondas vir me buscar
Luar triste do amor cativeiro
Escravo no ódio deste meu viveiro
Caranguejos no coração canteiro
Deixei a vida e corri pro mar
Vamos acabar com esta doidera
E as lagrimas descalças nesta fogueira
Eu como os rios de Canavieiras
Deixei a vida correr pro mar
Agora que eu sou sua jangada
Quero viver no seu mar
Hace tiempo, donde estay, tan lejo
7.Meu amor
Meu amor foi à vendinha
Comprar umas coisinhas
Pra fazer o nosso jantar
Fiquei esperando e observando
As ondas do mar
Que vão e vem
Não são de ninguém
Que vão e vem
Depois desaparecem
Meu amor voltou da vendinha
Trouxe umas cervejinhas
Pra gente bebericar
Ficamos nos amando
Como as aves do mar
Que vão e vem
Não são de ninguém
Que vão e vem
Depois voam para o alem
8.Adeus Canavieiras
Adeus Canavieiras
Eu vou me embora
Saudades desta terra
Eu vou levar
A terra do caranguejo
A ilha do desejo
O encontro do céu e do mar
Adeus Canavieiras
Eu vou me embora
Saudades desta terra
Eu vou levar
A praia dos tres coqueiros
De todos brasileiros
Da costa do cacau eu vou lembrar
Adeus Canavieiras
Eu vou me embora
Saudades desta terra
Eu vou levar
Atravessando o Rio Pardo
Com tantos amigos ao lado
Feliz, vendo a vida passar
Adeus Canavieira
Eu vou me embora
Saudades desta terra
Eu vou levar
O mar de águas barrentas
As tardes sonolentas
Morenas passam no seu balançar
Adeus Canavieiras e
Eu vou me embora
Saudades desta terra
Eu vou levar
Sobre o Patipe a ponte
Canoas lá no horizonte
Aqui a vida foi feita pra sonhar
9.Iemanja
Tem roda hoje na areia
Canto da sereia
E as ondas do mar
De branco como a lua cheia
O povo da aldeia
Se põe a esperar
Que a jangada de oferendas pule as ondas
Com força de alcançar
A rainha do mar
E o galo preto cantou
Foi quando Iemanja apareceu
Da licença pra sua magestade
Quem canta neste terreiro sou eu
Eu vou me embora
Mas quero deixar o meuadeus
O Homem que viajava
1.Caminho de asfalto
Esse caminho de asfalto
Que trilhamos agora
È tão igual a outros caminhos
E da vontade de dizer
A vida é a mesma
Por um só caminho
Porem a cada momento
Que é vivido e respirado
E que é pó
A vida é a mesma
2.Pela estrada esburacada deste mundo
Caminhando pela noite escura e fria companheiro
Vou pensando a vida não é
Correr atrás do dinheiro
E no fim desta estrada tem alguém me esperando
É gente como eu que vive
Pensando
Estrela que brilha eu vou seguir
Até a estrela que sonha
Eu vou sonhar
Pela estrada esburacada deste mundo
3.My way
my way é outra coisa
my way é diferente
é encontrar na esquina
uma pessoa pedindo esmolas
sem dentes
tirei meu chiclete da boca
e ofereci ao indigente
É tratar das esmolas
dentro de uma sacola de ofertas
migalhas do natal
ter sido formado na escola
jogar tudo pro alto
e fazer carnaval
ganhei tantos presentes
mas nenhum carinho
com tanta gente ao meu lado
eu me encontro sozinho
porque não me fizeram burro
como os todos os outros animais
vou me entristecendo
e sendo passado pra traz
fujo das pelancas da vida
nestes acordes anormais
queria ser Leandro
da dupla com Leonardo
e não precisar ouvir nunca mais
4.Morena do barreado
Onde é que se vai, morena.
Vou lavar roupa no rio
Onde você vai morena
Me esconder deste frio
Mas onde se vai morena
Encher de carne a panela
Não me engane morena
Se esta de namorado
Vai que vai morena
Vai fazer barreado
5.No rabo do cometa
Na frente do edfficio
Esperando um cometa
Passa gente, passa bala
Vara o coração
E aquela esperança que ficou
Nem a bomba de Hiroshima
Pode acabar
Viajando no seu rabo
Conheci muitas estrelas
Dalva, Três marias, Marilin Monroe
6. Coração
Há nessa mesa o que era firme
se desmancha neste copo
há na certeza
uma incerteza muito grande e o remorso
porque palavras e rimas
a gente esquece
num instante
então pra que vou me enganar
o coração é aquilo que a face mostra
mesmo no escuro do bar
eu posso olhar o coração
nessa mesa tão vazia
de amigos e esperança
vejo ela em sua dança
longe do meu olhar
o coração é aquilo que a face mostra
mesmo no escuro do bar
eu posso olhar o coração
7.Velho espantalho
O acaso se tornou o companheiro
Deste velho espantalho
Carta fora do baralho
Coração bem brasileiro
E a sorte evitou este encontro
Rodopiou e seguiu em frente
Passando por toda gente
Num samba bem verdadeiro
E da fé nada temos pra falar
Os anjos caíram na gandaia
Eu no fio da navalha
Jesus Cristo no pandeiro
8.Vampcity
O espectro solar
Dos raios cósmicos ira dizer
A vida continua a mesma
Up & Down
Vou andando, me escondendo
Procurando parecer normal
A vida nesta big Town
Parei no farol vermelho
No radio tocava um velho Rock & Roll
No relógio deu meia noite
Ai, eu me transformei num vampiro
O complexo de Édipo
Não posso evitar
E brinco com estricnina
Amor letal
Bocas, línguas.
Dentro, fora
Vou disparando amor
Na solidão capital
E os seus lábios são vermelhos
Seus olhos me hipnotizam
E eu me perdi nos seus braços
Só pra dizer que é tudo mentira
9.Consolação
Nessa minha loucura
Você não pode dizer
Vendo as luzes da cidade
Sem nada entender
Seu coração me contamina
Neste labirinto
Lugar nenhum pra chegar
Te chamo de puta e você me consola
Com o olhar de mulher menina
Vou vestir meu capacete
Bora, bora, viração
Eu fui feito um estilete
Fui feito pra ferir ou não
10.Para Jaco
Se o meu som foi convidado
quero entrar na festa
há mundos fechados a cadeados
Se o meu som foi olvidado
Olho por uma fresta
Mundos derrubados por pedras
Eles conseguiram me afastar
Para bem longe daqui
Sem ao menos entender a beleza em mim
Mas agora eu estou sentado
Na beira do arco-iris
De onde eu posso compor todas as canções
11.Montes claros
Montes claros, claro o dia
É de manhã
O sorriso da muchacha
Cheiro de hortelã
Na viajem mais um dia
Contaminado de verão
Na estrada curta da vida
Uma nova paixão
Que vem cheia de desejo
Febre mal sã
A loucura de um beijo
Sabor de maçã
Para ouvir alguma delas link http://www.recantodasletras.com.br/escrivaninha/voz/index.php
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Cariri Cangaço: uma maravilhosa renda nordestina
É na soma do seu olhar que eu vou me conhecer inteiro (Tanto amar, Chico Buarque)
Após quase 10 horas de viagem entre Campo Largo (PR), chego ao Cariri cearense. Logo na recepção no aeroporto, eu sou recebido com um caloroso abraço, recepção alegre e emotiva que os nordestinos costumam proporcionar a todos, sejam velhos amigos ou conhecidos recentes.
Uma breve passagem no hotel e lá vamos nós numa alegre caravana a caminho de Crato, uma moderníssima cidade localizada no sopé da Chapada do Araripe, uma agradável surpresa para mim, que meio desinformado da força deste Nordeste, esperava encontrar um pequeno povoado do sertão nordestino.
Daí, então começo ver ser elaborada a maravilhosa renda da cultura nordestina que é o Cariri Cangaço, uma renda elaborada pelo demiurgo Manoel Severo e pela sua querida esposa Daniele que entrelaça os diversos tipos de pesquisas, cidades, perspectivas, paixões, emoções, serras, céus, amizades e tanta coisa mais. Esta trama começou a ser tecida pelo fio de seda de cor prata oferecido pela Professora Salete Libório que, através do que a sua alma clamava, trouxe a importância da personagem Bárbara de Alencar na história da liberdade do Brasil.
Após uma noite de sono restaurador daquela verdadeira overdose de emoções da primeira noite, acordei em meio à própria gruta de Angico, traçada com fios de algodão dourado pelos artesãos Amaury, Aderbal, Gastão, Alcino, Sabino e Jairo, e por toda uma infinidade de outros fios, diversas cores entrelaçadas por outros artesãos presentes. Artesãos tão laboriosos, mas que seriam impossíveis de serem citados na limitação de uma folha de papel, e que, por este motivo lanço mão das palavras do grande vaqueiro/violeiro baiano Elomar: “Mas foi tanto dos vaqueiros (artesãos) que reinou no meu sertão, que cantando o dia inteiro não menajo todos não”.
Esta rede multicolorida que estava sendo constituída, nos transportou para os últimos momentos de vida de Lampião dentro de uma perspectiva que a recriação da realidade só é possível através de uma pluralidade de visões, pois, conforme nos ensina Heráclito, a realidade tem como característica o movimento e, portanto, impossível de ser apreendida por uma só linha, uma realidade que a sabedoria poética de Chico Buarque capturou em Tanto amar: “É na soma do seu olhar que eu vou me conhecer inteiro”.
Dentro deste fino e colorido tecido que ia sendo construído, viajamos no decorrer destes seis dias de entrelaçamento através das exuberantes paisagens do Cariri para Joazeiro, Barro, Barbalha, Floresta do Araripe, Missão Velha e Porteiras, conhecendo cidades muito bem geridas pelos seus administradores. No entanto, entre as tantas emoções e descobertas que para sempre serão delicadamente lembradas, não posso deixar de dar o meu testemunho do momento em que me senti voltando ao útero materno. Este momento aconteceu quando em meio a nossa caminhada pela floresta do Araripe, Severo solicitou que parássemos um pouco para observar a natureza e nos mostrou que além de elaborar a rede, ele também sabe balançá-la, nos ofertando toda uma renovação espiritual.
Finalmente, após esta verdadeira odisséia de amor, amizade e conhecimento que resultou nesta multiforme e colorida renda de bilro − fruto coletivo do trabalho difícil e fino realizado com grande habilidade por todos os artesãos do Cariri Cangaço−, parto triste, porém com a certeza que o nosso maestro Severo, além de um grande artesão e de uma grande alma, é também um grande artilheiro, pois balançou a rede do meu coração, parto com vontade de dizer:
Só deixo o meu Cariri Cangaço no último pau de arara.
Grande abraço a todos
Luiz Zanotti
Após quase 10 horas de viagem entre Campo Largo (PR), chego ao Cariri cearense. Logo na recepção no aeroporto, eu sou recebido com um caloroso abraço, recepção alegre e emotiva que os nordestinos costumam proporcionar a todos, sejam velhos amigos ou conhecidos recentes.
Uma breve passagem no hotel e lá vamos nós numa alegre caravana a caminho de Crato, uma moderníssima cidade localizada no sopé da Chapada do Araripe, uma agradável surpresa para mim, que meio desinformado da força deste Nordeste, esperava encontrar um pequeno povoado do sertão nordestino.
Daí, então começo ver ser elaborada a maravilhosa renda da cultura nordestina que é o Cariri Cangaço, uma renda elaborada pelo demiurgo Manoel Severo e pela sua querida esposa Daniele que entrelaça os diversos tipos de pesquisas, cidades, perspectivas, paixões, emoções, serras, céus, amizades e tanta coisa mais. Esta trama começou a ser tecida pelo fio de seda de cor prata oferecido pela Professora Salete Libório que, através do que a sua alma clamava, trouxe a importância da personagem Bárbara de Alencar na história da liberdade do Brasil.
Após uma noite de sono restaurador daquela verdadeira overdose de emoções da primeira noite, acordei em meio à própria gruta de Angico, traçada com fios de algodão dourado pelos artesãos Amaury, Aderbal, Gastão, Alcino, Sabino e Jairo, e por toda uma infinidade de outros fios, diversas cores entrelaçadas por outros artesãos presentes. Artesãos tão laboriosos, mas que seriam impossíveis de serem citados na limitação de uma folha de papel, e que, por este motivo lanço mão das palavras do grande vaqueiro/violeiro baiano Elomar: “Mas foi tanto dos vaqueiros (artesãos) que reinou no meu sertão, que cantando o dia inteiro não menajo todos não”.
Esta rede multicolorida que estava sendo constituída, nos transportou para os últimos momentos de vida de Lampião dentro de uma perspectiva que a recriação da realidade só é possível através de uma pluralidade de visões, pois, conforme nos ensina Heráclito, a realidade tem como característica o movimento e, portanto, impossível de ser apreendida por uma só linha, uma realidade que a sabedoria poética de Chico Buarque capturou em Tanto amar: “É na soma do seu olhar que eu vou me conhecer inteiro”.
Dentro deste fino e colorido tecido que ia sendo construído, viajamos no decorrer destes seis dias de entrelaçamento através das exuberantes paisagens do Cariri para Joazeiro, Barro, Barbalha, Floresta do Araripe, Missão Velha e Porteiras, conhecendo cidades muito bem geridas pelos seus administradores. No entanto, entre as tantas emoções e descobertas que para sempre serão delicadamente lembradas, não posso deixar de dar o meu testemunho do momento em que me senti voltando ao útero materno. Este momento aconteceu quando em meio a nossa caminhada pela floresta do Araripe, Severo solicitou que parássemos um pouco para observar a natureza e nos mostrou que além de elaborar a rede, ele também sabe balançá-la, nos ofertando toda uma renovação espiritual.
Finalmente, após esta verdadeira odisséia de amor, amizade e conhecimento que resultou nesta multiforme e colorida renda de bilro − fruto coletivo do trabalho difícil e fino realizado com grande habilidade por todos os artesãos do Cariri Cangaço−, parto triste, porém com a certeza que o nosso maestro Severo, além de um grande artesão e de uma grande alma, é também um grande artilheiro, pois balançou a rede do meu coração, parto com vontade de dizer:
Só deixo o meu Cariri Cangaço no último pau de arara.
Grande abraço a todos
Luiz Zanotti
sábado, 15 de outubro de 2011
EUROPA
Europa 21/07/96
Picollo, Pequeno, pequeno.
E velho mundo
A sua insensatez
Em trocar a natureza
Por comodismos do momento
A cordilheira é um camelo
Os pequenos arbustos apontam a direção
Unidos como os rolos de feno
Ou os carros novos da cegonheira
A ave voa só
Sobre os campos de girassóis
Nós que respiramos tanto
O ar medieval e o pó dos monastérios
Invadimos-te feito bárbaros
Sabinas, sarcófagos, sabedoria.
Vecchio mondo
Quero as suas tetas
Para formar um
Novo povo
Na sombra de uma oliveira
Aonde me jogaste aos leões
Hoje vende miniaturas
Aquilo que foi pura emoção
Hoje é replica chinesa
O espírito voa só
Sobre os campos do senhor
Latas de cerveja, casas de cambio.
A devoção is over.
Picollo, Pequeno, pequeno.
E velho mundo
A sua insensatez
Em trocar a natureza
Por comodismos do momento
A cordilheira é um camelo
Os pequenos arbustos apontam a direção
Unidos como os rolos de feno
Ou os carros novos da cegonheira
A ave voa só
Sobre os campos de girassóis
Nós que respiramos tanto
O ar medieval e o pó dos monastérios
Invadimos-te feito bárbaros
Sabinas, sarcófagos, sabedoria.
Vecchio mondo
Quero as suas tetas
Para formar um
Novo povo
Na sombra de uma oliveira
Aonde me jogaste aos leões
Hoje vende miniaturas
Aquilo que foi pura emoção
Hoje é replica chinesa
O espírito voa só
Sobre os campos do senhor
Latas de cerveja, casas de cambio.
A devoção is over.
terça-feira, 22 de março de 2011
Texto, tela, palco e ciberespaço I numa visada multidisciplinar
Em 1973, Clifford Geertz se colocou esta questão: "O que faz um etnógrafo? Para ele mesmo responder: Escreve.
A partir desta simples constatação se abriu toda uma questão orientada para uma reconfiguração de todo um quadro do pensamento social, pois agora, as investigações filosóficas parecem ser criticas literárias, como ao pensar Sartre escrevendo sobre Flaubert, as discussões cientificas se assemelham a fragmentos de belas letras (Lewis Thomas), fantasias barrocas se apresentam como observações empíricas inexpressivas (Borges, Lezama), histórias que consistem de equações e tabelas ou ainda testemunhos jurídicos (Fogel e Engerman), documentos que parecem confissões verdadeiras (Mailer), parábolas que passam por etnografias (Castaneda), tratados teóricos expostos como recordações de viagem (Levís-Strauss), argumentos ideológicos apresentados como investigações historiográficas (Edward Said), e assim por diante.(Reynoso, 2003, 63).
Assim, apesar de se encontrarem em posições diferentes dentro da escala cientifica e metodológica, é interessante notar como a Literatura, a História, Filosofia, a Psicanálise e a Antropologia, fazem uso das técnicas narrativas (textos), e mais do que isto, elas são alegóricas, tanto no conteúdo (no que ela diz), como em sua forma (modo de textualização).
Outra importante constatação é de que tudo é texto: Para Barthes (2006), tudo é texto e qualquer novo texto reúne fragmentos de citações passadas, pedaços de códigos, modelos rítmicos, fragmentos de linguagens sociais, etc., que passam através do texto e são redistribuídos dentro dele, visto que sempre existe linguagem antes e em torno do texto. Nestes, as redes são múltiplas e se entrelaçam. Este texto é uma galáxia de; não tem início; é reversível e nela penetramos por diversas entradas, sem que nenhuma delas possa qualificar-se como principal.
A medida que tudo é texto, estaremos neste Grupo comparando diferentes tipos de textos como o literário, o cinematográfico, o cênico, o romence gráfico (mais conhecido como quadrinhos), e o chamdo hiper-texto lembrando que estes textos são concebidos como uma série de sentidos que mudam, contradizem e respondem um ao outro: ― um assunto significante esperando o sentido‖ (PAVIS citado em SCHIMIDT, 2005, p. 53).
Referências:
BARTHES, Roland. O prazer do texto. Trad. de Jacó Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2008
REYNOSO, C. (ed)- “El surgimento de la antropologia posmoderna”, 2003, Gedisa, Madrid
SCHIMIDT, Kerstin. The Theater of Transformation: Postmodernism in American Drama. New York: Rodopi, s/d.
A partir desta simples constatação se abriu toda uma questão orientada para uma reconfiguração de todo um quadro do pensamento social, pois agora, as investigações filosóficas parecem ser criticas literárias, como ao pensar Sartre escrevendo sobre Flaubert, as discussões cientificas se assemelham a fragmentos de belas letras (Lewis Thomas), fantasias barrocas se apresentam como observações empíricas inexpressivas (Borges, Lezama), histórias que consistem de equações e tabelas ou ainda testemunhos jurídicos (Fogel e Engerman), documentos que parecem confissões verdadeiras (Mailer), parábolas que passam por etnografias (Castaneda), tratados teóricos expostos como recordações de viagem (Levís-Strauss), argumentos ideológicos apresentados como investigações historiográficas (Edward Said), e assim por diante.(Reynoso, 2003, 63).
Assim, apesar de se encontrarem em posições diferentes dentro da escala cientifica e metodológica, é interessante notar como a Literatura, a História, Filosofia, a Psicanálise e a Antropologia, fazem uso das técnicas narrativas (textos), e mais do que isto, elas são alegóricas, tanto no conteúdo (no que ela diz), como em sua forma (modo de textualização).
Outra importante constatação é de que tudo é texto: Para Barthes (2006), tudo é texto e qualquer novo texto reúne fragmentos de citações passadas, pedaços de códigos, modelos rítmicos, fragmentos de linguagens sociais, etc., que passam através do texto e são redistribuídos dentro dele, visto que sempre existe linguagem antes e em torno do texto. Nestes, as redes são múltiplas e se entrelaçam. Este texto é uma galáxia de; não tem início; é reversível e nela penetramos por diversas entradas, sem que nenhuma delas possa qualificar-se como principal.
A medida que tudo é texto, estaremos neste Grupo comparando diferentes tipos de textos como o literário, o cinematográfico, o cênico, o romence gráfico (mais conhecido como quadrinhos), e o chamdo hiper-texto lembrando que estes textos são concebidos como uma série de sentidos que mudam, contradizem e respondem um ao outro: ― um assunto significante esperando o sentido‖ (PAVIS citado em SCHIMIDT, 2005, p. 53).
Referências:
BARTHES, Roland. O prazer do texto. Trad. de Jacó Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2008
REYNOSO, C. (ed)- “El surgimento de la antropologia posmoderna”, 2003, Gedisa, Madrid
SCHIMIDT, Kerstin. The Theater of Transformation: Postmodernism in American Drama. New York: Rodopi, s/d.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL: GLAUBER ROCHA, LEITOR DE GUIMARÃES ROSA.
DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL: GLAUBER ROCHA, LEITOR DE GUIMARÃES ROSA.
LUIZ ROBERTO ZANOTTI
Doutorando no PPG em Letras: Estudos Literários (UFPR)
Introdução
O objetivo deste trabalho é apresentar como a idéia da coexistência de elementos mutuamente excludentes, da forma como nos é apresentada através das palestras de Wolfgang Iser por ocasião do VII Colóquio UERJ , se encontra presente, tanto em Grande sertão: veredas (1956) de João Guimarães Rosa, como também é utilizada por Glauber Rocha em seu longa metragem Deus e o diabo na terra do sol (1964) .
Para isto, inicialmente traçamos uma ligeira revisão da teoria iseriana desde o aparecimento da teoria dos efeitos (reader-response criticism), que enfoca a assimetria entre texto e leitor, até o conceito de antropologia literária, que trata da interação entre o fictício e o imaginário.
É importante notar, que mais do que trabalhar na interpretação destas duas obras de arte, procuramos aplicar a teoria de Iser como uma explicação para o fenômeno da coexistência de elementos mutuamente exclusivos, pois como o próprio Iser afirma: “É importante notar que tanto as teorias do efeito estético e a antropologia literária são basicamente constructos, ora, constructos não são necessariamente descrições de ocorrências empíricas”. (ISER in ROCHA, 1999, p. 47)
Iser mostra, no percurso da sua obra, toda a sua orientação teórica heurística, mantendo um certo afastamento de instrumentos interpretativos, através dos quais diferentes estruturas de constituição de sentido são examinadas e, logo, decodificadas, ou seja, com o analista se obrigando a fornecer uma interpretação para um determinado texto.Dessa forma, a teoria de Iser está muito mais voltada para pressupostos heurísticos capazes de descrever qualquer gênero de produção de sentido, ou seja, para investigar as condições mais gerais ( e portanto mais abstratas) que possibilitam o próprio ato interpretativo. (SCHOLLHAMMER in ROCHA, 1999, p. 119)
Seguindo um raciocínio semelhante, João César Rocha lembra que Iser tem elaborado uma reflexão que, a exemplo do objeto investigado, se modifica, incorpora novos conceitos, retoma preocupações, aprofundando seu alcance e redefinindo suas prioridades numa rara lição de precisão teórica que continuamente se adapta a “indecibilidade” do objeto (ROCHA, 1999, p.14).
Enfim, a teoria de Iser se limita através de um esforço heurístico a constituir esquemas com a finalidade de mapear a realidade e, portanto, a abordagem iseriana não pretende interpretar realizações determinadas, mas, pelo contrário, almeja fornecer um sistema de referências no âmbito no qual aquelas realizações adquirem especificidade, ou seja, não se trata de elaborar métodos particulares de interpretação, mas de mapear as disposições mais básicas no interior das quais o ato interpretativo se torna concebível, e até mesmo necessário.
1. A teoria dos efeitos (A interação entre o leitor e o texto)
Pode-se dizer que tanto a teoria dos efeitos de Iser, como a estética da recepção, que tem como o seu principal artífice Hans Robert Jauss, são em grande parte, inspiradas em Hans-Georg Gadamer; mas enquanto a estética da recepção se articula a partir da reconstrução histórica de juízos de leitores particulares, objetivando verificar o modo como se processa a interação das expectativas tradicionais do leitor frente a um texto específico, ou seja, através da análise da fusão dos horizontes de expectativa com o ato de leitura; a estética do efeito é trabalhada a partir do texto, uma vez que ela pretende elaborar uma descrição da interação fenomenológica que ocorre entre texto e leitor.
Iser elabora o constructo da existência de uma assimetria inicial entre texto e leitor, sendo que a estética do efeito almeja compreender o ato de leitura como uma forma particular de negociação daquela assimetria. Para tanto, investiga a estrutura própria dos textos literários, valorizando a interação específica que tal estrutura provoca.
Em suma, enquanto a estética da recepção trabalha com atos de leitura historicamente verificáveis, a teoria do efeito estético busca o estabelecimento de um modelo genérico que dê conta do próprio ato de leitura de textos literários, independentemente de seus contextos particulares de atualização. A teoria de Iser analisa o efeito estético como relação dialética entre texto e leitor, uma interação que ocorre entre ambos, ou seja, ainda que se trate de um fenômeno desencadeado pelo texto, a imaginação do leitor é acionada, para dar vida ao que o texto apresenta e reagir aos estímulos recebidos.
Do ponto de vista epistemológico, essa metáfora da interação designa uma instância textual que guia a recepção do texto e um leitor que "processa" ativamente o texto. Para Iser, quando produtiva, essa interação entre duas instâncias (agencies) se apóia na negatividade e na indeterminação enquanto modos de contato. Da mesma maneira que um texto bem-sucedido ultrapassa as fronteiras das determinações históricas e culturais, uma leitura produtiva processa e, com isso, muda ativamente o que é "manifesto" num texto. Gabriele Schwab lembra que para Iser: a determinação nos decepciona num texto tanto quanto numa leitura. (SCHWAB in ROCHA, 1999, p.37)
Ao se reportar à decepção com os textos “determinados” que oferecem uma simples busca da mensagem e do sentido, e propor o constructo da interação texto-leitor, Iser deixa claro a importância que credita à indeterminação de um texto, o que como veremos adiante possibilita a idéia da coexistência de elementos mutuamente excludentes. Iser, no primeiro capítulo “Arte parcial- A interpretação universalista” do livro O ato de leitura (1996) apresenta a inadequação do gesto da interpretação teórica da literatura que busca as significações aparentemente ocultas nos textos literários, tomando como exemplo o conto The figure in the carpet (1896), de Henry James, onde o autor problematiza a procura por significações ocultas nos textos − o que provavelmente desempenhou um papel importante na crítica literária de sua época −, mostrando a sua inadequação (ISER, 1996b, p. 23).
Assim, uma vez perdido o solo firme do “essencialismo” e com o texto deixando de ser o foco principal da análise, esta passa para o leitor em sua interação com o texto; e ciente que nenhuma história pode ser contada na íntegra, Iser vai trabalhar com o constructo de um texto que é pontuado por hiatos, lacunas e negatividades que têm de ser negociados no ato da leitura. A lacuna (vazio) no texto ficcional induz e guia a atividade do leitor com a suspensão da conectibilidade entre segmentos de perspectivas, possibilitando a participação do leitor no texto; enquanto a negatividade significa a não realização de um procedimento (que é esperado pelo leitor), isto é, a sua realização negativa com a intenção de empurrar o leitor para fora do texto.
Toda esta estrutura, segundo Schwab traz um aspecto fundamental na obra iseriana que mostra a sua tentativa de evitar as armadilhas da manifestação concreta e, em última instância, solapar qualquer forma de determinação, e cita: "o que a linguagem diz é transcendido por aquilo que ela revela, e aquilo que é revelado representa o seu verdadeiro sentido" (SCHWAB in ROCHA, 1999, p. 35).
2. A interação entre o fictício e o imaginário
A interação do fictício com o imaginário, assim como a interação leitor-texto, também abre vários espaços para a indeterminação, e a origem deste novo constructo “interação fictício-imaginário” se encontra no fato da teoria do efeito estético não conseguir explicar a aparente necessidade dos seres humanos por um meio de "fingimento" (ficção), uma característica que aparece nas investigações de Iser sobre o que de fato acontece quando lemos.
A partir desse pressuposto, Iser amplia o horizonte da teoria do efeito estético, a fim de transformar o estudo da estrutura dos textos literários e, sobretudo, da interação entre texto e leitor, numa investigação dos modos de operação que caracterizam o desenvolvimento de disposições propriamente humanas, apresentada em O fictício e o imaginário: perspectivas de uma antropologia literária (1996).
Neste ensaio, Iser apresenta a idéia de que a narração se encontra na fronteira que delimita o ficcional, o imaginário e a realidade, tornando possível a caracterização do referencial reportado, mas sem a possibilidade de ser por ele determinado, afirmando assim a proximidade entre os textos ficcionais e não-ficcionais, uma vez que eles são apenas materiais para a intenção do autor quando seleciona estes elementos que vão aparecer na narração, pois, não há representação puramente concebida, re-presentada.
O processo de elaboração do texto ficcional é bastante complexo, podendo ser caracterizado como uma travessia de fronteiras entre dois mundos, que sempre inclui, o mundo que foi ultrapassado e o mundo alvo a que se visa, que tanto pode se relacionar a uma mentira que busca exceder a verdade, como uma ultrapassagem do mundo real. Para se perceber as implicações destas duplicações é importante notar que os atos de fingir, componente básico dos textos literários, oferecem diferentes áreas para o jogo.
O fictício para realizar o que tem em mira, depende do imaginário − que não é auto-ativável −, pois o que tem em mira só aponta para alguma coisa que não se configura em decorrência de se estar apontando para ela: é preciso imaginá-la. O horizonte de possibilidades prefigurado pela transgressão de fronteiras inevitavelmente modifica as realidades que foram ultrapassadas, sendo que o imaginário só pode ser apreendido por meio de seus efeitos que uma vez ativados, faz com que o que era não possa permanecer o mesmo.
Sendo assim, a ativação desse potencial precisa ser moldada, e disso se encarregam os “atos de fingir”, ao forçarem a fantasia a assumir uma forma, para que as possibilidades abertas por eles possam ser concebidas, já que o próprio ato de fingir não pode conceber aquilo para o que ele apontou. A imposição de forma tem um duplo efeito: torna concretas as várias transgressões de fronteira, ao mesmo tempo, que converte o fictício num meio para que o imaginário se manifeste. (ISER in ROCHA, 1999, p. 71)
Vista sob esta perspectiva a literatura não reproduz ou espelha nada fora dela, mas antes apresenta algumas ilimitadas possibilidades que existem além das manifestações históricas concretas, sejam relativas aos sujeitos individuais, sejam referentes às culturas, e daí abre-se a possibilidade do aparecimento da coexistência de elementos opostos, que a princípio, dentro de uma filosofia cartesiana e dicotômica deveriam ser mutuamente excludentes.
Dessa forma, numa primeira abordagem pode-se dizer que enquanto o fictício se manifesta de uma maneira intencional, o imaginário trabalha de uma forma espontânea, com ambos fazendo parte de uma interação que se expande continuamente através de um jogo que tem o papel de uma estrutura reguladora da interação. Este jogo possui regras e os jogadores têm de obedecê-las na tentativa de saber que questão é essa. “Não existem respostas definitivas. Ao invés de um discurso vitimador, uma consciência crescente que num mundo aberto as soluções são, na melhor das hipóteses, provisórias, inexistindo respostas conclusivas” (ISER in ROCHA, 1999, p. 217).
Iser desenvolve a interação do fictício com o imaginário, apesar da dificuldade de qualquer afirmação de suas naturezas ontológicas, pois só podemos apreendê-los mediante uma descrição operacional das suas manifestações, através do jogo (play), uma estrutura capaz de propiciar diferentes tipos de interação, quer entre o texto e o leitor, quer entre o fictício e o imaginário. Isso significa que a “ficcionalização” sempre está sujeita a mudanças, em decorrência de sua inabilidade para controlar o alvo a que visava. O jogo emerge da coexistência do fictício e do imaginário que se fundem, visto que cada um é em si mesmo incapaz de cumprir qualquer função específica, sendo necessária a sua interação para desencadear aquele movimento de jogo.
Assim, num universo ficcional indeterminado, dentro de uma ilimitada perspectiva de interpretação apoiada pela dinâmica semântica fornecida pelo jogo interpretativo, e pelas mudanças constantes de realizações imaginárias, aparece a condição de existência para a “coexistência de elementos mutuamente excludentes”, um conceito, que segundo Jean Paul Riquelme não pode ser previsto por Aristóteles, pois ao contrário da mimesis; Iser mostra, desenleaando a trama aristotélica, que a leitura da literatura é múltipla, podendo chegar-se ao final dela, sem nunca esteja terminada, à semelhança das histórias que contava Sherazade (RIQUELME in ROCHA, 1999, p. 215).
Dentro, deste panorama, que Riquelme chama a “Antropologia literária” de um “espaço não-euclidiano” , pois Iser apresenta a noção da possibilidade da coexistência de termos excludentes como uma importante propriedade da obra literária, e porque não dizer da obra de arte em geral: A ficcionalidade como coexistência ou simultaneidade de elementos mutuamente excludentes, tradução de alguma coisa para outro registro, escapa a fundamentação ontológica (coisificação) e estimula a necessidade de compreendê-lo (ato de tradução correspondente a ausência de qualquer totalidade). (ISER in ROCHA, 1999, p. 221), ou como Oscar Wilde indicou: “uma verdade na arte é uma afirmação cujo oposto também é verdadeiro” (WILDE citado em ROCHA, 1999, p. 216).
Assim sendo, Iser se libertando das muletas literárias, vai trabalhar nas suas obsessões de dissolver as fronteiras, limites, e teorias levadas ao limite que estão relacionadas a resistência a movimentos essencialistas, totalizantes e ontológicos; vai trabalhar a literatura como uma obra em movimento; e assumir a importância da indeterminação e da coexistência de termos mutuamente excludentes, [...]. (SCHWAB in ROCHA, 1999, p. 227)
3. A coexistência de elementos mutuamente excludentes em Grande sertão
A seguir apresentamos alguns poucos exemplos da coexistência de elementos mutuamente excludentes dentro de uma gama infinita, mostrando que a lógica dicotômica não deve ser vista como a única alternativa para apreensão do real. Esta coexistência que aproxima e afasta elementos contraditórios e aparentemente incompatíveis já pode ser percebida no fragmento: “Família. Deveras? É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é… Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses.” (GUIMARÃES ROSA , 1994, p. 201).
Em Grande Sertão, o leitor é convidado a rever alguns aspectos e reelaborar idéias, tais como o rompimento com visões dicotômicas como bom x ruim, feio x belo, uma vez que apresenta os tais atributos numa mesma pessoa, ou seja, o sertão de Guimarães tanto pode ser local físico em Minas Gerais como a imagem de um ser (tão) existencial.
Marta Costa (1997) apresenta esta coexistência através do elemento água, que ao mesmo tempo é passivo e feminino; a água também está ligada à formação da vida, devido a seu incessante movimento de fluir, mas aqui também aparece a sua dupla função, pois durante a imersão se liga ao aniquilamento, na perda de forma e conseqüentemente a morte.
É o rio Urucuia, espaço aquático inicial, medial e final da trajetória de Riobaldo. À cor de suas águas, a seu leito navegável, à região que banha, soma-se a presença de Otacília, imagem idealizada da mulher amada, ninfa, dessas águas. Mas ele é também um rio ambíguo. Se Otacília é a paz dos "remansos” do Urucuia, Diadorim é as suas sombras. Neste espaço, quando criança e adolescente, Riobaldo adquiriu os elementos; que o qualificariam para a vida adulta: a cultura, a destreza nas armas, o anseio de uma vida calma. Às suas margens surgem valores opostos: o fazendeiro/o jagunço; o homem com "status" social/ o marginal; o bem estar/a aventura, o ficar/ o ir e vir. (COSTA, 1997, p. 240)
Loyolla (2009) trabalha esta coexistência através do relacionamento entre Riobaldo e Diadorim trazendo o aspecto da dualidade ativo-passivo, masculino-feminino que permite a recorrência aos mitos primordiais, cujos heróis como Vaishvanara, Shiva, P’an-ku e Lao-kiun, tinham o olho direito ligado ao Sol e o esquerdo a Lua, sendo que a primeira correspondência aponta para o futuro, para o princípio masculino, para a autoridade e a segunda para o passado, regendo atividades associadas ao princípio feminino, à fecundação.
Assim sendo Diadorim mostra-se benevolente e terrível ao mesmo tempo. Ao lado de sua forma ameaçadora, em sua vontade inflexível de guerrear, apresenta-se uma forma graciosa. Ao mesmo tempo em que não mantém uma postura de piedade diante do inimigo — conduta supostamente feminina — parecendo inumana, sustenta com Riobaldo um relacionamento terno e de grande intimidade com a natureza, constituindo-se uma tensão entre a dimensão mortífera e a vital. (LOYOLLA, 2009)
Assim, Diadorim, as vezes invoca a dor e o ódio e as vezes o júbilo e o amor, mas essa oscilação de papéis não se restringe à personagem Diadorim; pois a própria imagem do jagunço, assim como a do cangaceiro, é ambígua em sua função. Como exemplo, podemos citar o cangaceiro Lampião, uma figura histórica que oscila entre um personagem reconhecido como herói ou retratado como vilão.
Renomados historiadores e antropólogos, tais como, Luitgarde Barros (2000), Frederico Mello (2005) e Maria Christina Machado (1978), entre outros, possuem diferentes visões sobre este assunto, sendo que os primeiros ressaltam o seu caráter ligado ao banditismo , enquanto Machado apresenta, dentro de uma perspectiva marxista, Lampião não como um fato isolado, mas sim como o resultado de uma época em que se processava a luta surda, empreendida pelo vaqueiro contra o senhor da terra. (MACHADO, 1978, p. 6).
Antonio Candido também ressalta esta coexistência ao falar desta ambigüidade da mulher-homem que é Diadorim; ambigüidade metafísica, que balança Riobaldo entre deus e o diabo, entre a realidade e a dúvida do pacto, dando-lhe o caráter de iniciado no mal para chegar ao bem, ambigüidade inicial e final do estilo, popular e erudito, arcaico e moderno, claro e escuro, artificial e espontâneo. (CANDIDO citado em MARÇOLLA, 2009).
Leonardo Almeida (2009) vai se apoiar na tabula smaradigma , para notar que no fragmento “Ouro e prata que Diadorim aparecia ali” (R., p.405) configura a coexistência do masculino com o feminino que se faz da seguinte forma: “masculino: o sol, ouro, o fogo, o ar, o rei, o espírito de enxofre; feminino: a luz, a prata, a terra, a água, a rainha, o espírito de mercúrio” (BRANDÃO citado em ALMEIDA, 2009). Ouro associado ao princípio masculino e ao espírito de enxofre; a prata ao princípio feminino e ao espírito de mercúrio.
Enfim, na tentativa de visualizar o processo pelo qual o real, o fictício joga com o imaginário nessas diversas leituras, é interessante notar que Loyolla (2009) apresenta a pedra ametista, como um elemento que ajuda a elucidar o comportamento ambíguo de Diadorim, que às vezes é dócil e às vezes é seco, pronto para matar e vingar. Esta pedra corresponde na astrologia ao planeta Vênus que faz duas aparições nas duas extremidades do dia, sendo por isso conhecido como estrela da manhã e estrela da tarde, o que faz dele um símbolo de morte e renascimento. “Como deusa da tarde, sob a influência da lua, favorece o amor e a volúpia — uma divindade do prazer; como deusa da manhã, em virtude de seu parentesco com o sol, preside os atos de guerra e massacre. Assim em Diadorim, ora suas qualidades guerreiras se impõem, ora ela se permite ao prazer” (LOYOLLA, 2009).
Essa dualidade estrela da manhã e estrela da tarde parece ser uma das grandes coincidências entre esta interpretação proposta por Loyola e o comentário efetuado por Schollhamer (ROCHA, 1999, p. 118), para quem, Gotlib Frege (1978) tem uma grande influência na teoria de Iser:
[...] os significados são distinguíveis da referência, pois diferentes signos podem se referir aos mesmos objetos, como é o caso das duas frases para se referir ao planeta “Venus”. Para se explicar a diferença cognitiva entre as duas frases, é necessário considerar o conteúdo dos signos e não eles próprios através de uma explicação não metalinguística das sentenças. Sentido é um conteúdo cognitivo suplementar ao objeto, assim, estrela da manhã e estrela da tarde falam do mesmo objeto e dividem o mesmo conteúdo semântico, portanto elas tem o mesmo objeto (referente), por via sentidos diferentes.(FREGE, 1978).
4. Coexistência de elementos mutuamente excludentes em Deus e o diabo.
Glauber Rocha ao filmar Deus e o Diabo vai buscar uma situação em que, segundo Avellar, a relação espectador/filme parte de um sentimento idêntico: o filme como uma expressão incompleta, melaço de cana, para ser refinada pelo espectador. Um provocador onírico, pois o filme é também um provocador crítico, e cita o próprio Glauber: “Na medida em que se dá ao espectador um tipo acabado [...], um tipo reduzido, um tipo estratificado, um tipo dentro dessa tradição, não se dá a menor possibilidade de diálogo com o espectador, porque se coloca [...] (AVELLAR, 1995, p. 17)
Da mesma forma como observou certa vez Marcel Duchamp, "o artista não é o único a realizar o ato de criação porque o espectador interpreta e decifra suas significações profundas e acrescenta assim sua própria contribuição ao processo criativo", Glauber vê a criação como uma série de esforços, de dores, de satisfações, de negações, de decisões que não podem nem devem ser plenamente conscientes, pelo menos no plano estético. A obra é a expressão em estado bruto, que deve ser refinada pelo espectador pois: "Liberta pela imaginação o que é proibido pela razão" (GLAUBER citado em AVELLAR, 1995, p. 59)
Mas esta liberdade oferecida pela imaginação não significa para Glauber, assim como já vimos em Iser, que o filme altere a realidade, pois para ele sempre existe o aproveitamento e desenvolvimento de elementos reais:
Não há uma só coisa no filme que não corresponda a um dado real e concreto, inclusive o próprio fato do cangaceiro girar. Por que escolhi o Corisco? O Corisco tinha todas aquelas características que me interessavam: era um sujeito rápido, ágil, místico, histérico e verboso. Tinha tudo isso, se chamava Corisco porque ninguém acertava nele: andava rodando mesmo. (GLAUBER citado em AVELLAR, 1995, p. 87).
Mas Corisco é a própria constatação da coexistência de elementos mutuamente excludentes pois, no filme, o ator Othon Bastos que encena a personagem Corisco, além de emprestar a sua voz a sua própria personagem, faz ainda uma outra voz, a do Santo Sebastião - algo mais grave que a de Corisco, a idéia de usar a mesma voz para deus e para o diabo, segundo Avellar (1995, p. 22) surgiu somente durante a montagem, de modo a que o espectador pudesse identificar uma certa semelhança entre as propostas e mais rapidamente concluir com o filme que a terra é do homem, nem de deus nem do diabo.
Esta coexistência, segundo Claudio da Costa, também pode ser percebida em um espelhamento de uma na outra, pois enquanto Sebastião tem parte com Deus e com o Diabo, como diz Antônio das Mortes, Corisco é o diabo que foi possuído por São Jorge. Esses espelhamentos dobram em ambigüidades a palavra do cego e de seus mitos. A palavra mítica, afirma Luiz Costa Lima, é verdade e engano, simultaneamente. Com as palavras de Marcel Detienne, Costa Lima nos diz que, "no pensamento mítico os contrários são complementares" (COSTA LIMA citado em COSTA, 2000, p.68)
Deus e o diabo vai trabalhar com outras interações, além daquelas constatadas por Iser, pois a escrita da imagem é uma forma de jogo que afirma a interação infinita entre a palavra (som) e a imagem (fotografia), a conjugação em reversibilidade entre duas dimensões do audiovisual. Tal reversibilidade infinita torna possível a coexistência dos elementos contrários, pois como vimos, Glauber cria uma imagem onde o espectador descobre que não está a ser imposta uma visão dirigida como um produto concluído do autor, buscando eliminar a idéia do espectador como um ser que contempla, de maneira semelhante com que Guimarães Rosa trabalha na indeterminação. O artista quer expulsar e revelar no homem seu conflito e inconformismo com o mundo e impulsioná-lo ao desconhecido.Neste sentido, a coexistência dos excludentes trabalha no sentido de quebrar a resistência, a automação da consciência, na desconstrução do caráter normativo das coisas, a fim de abrir espaço para o novo: “Pela arte é possível "pensar a natureza e o absurdo" (GLAUBER citado em VENTURA, p. 170).
A “desrazão” que possibilita a coexistência dos excludentes faz parte da estética de Glauber que reivindica a libertação das variações ideológicas da razão e que promova a fusão do humano ao cosmos. A revolução explicita que a pobreza é um fenômeno da razão dominadora que recusa o desconhecido, classificando-o como irracional. A revolução é a "desrazão" que liberta o homem da razão repressiva. Ela se faz na imprevisibilidade (VENTURA, 2000, p. 284).
5. Conclusão
Assim, a existência dos mutuamente excludentes que aparecem em Grande Sertão, fazendo que em Diadorim seja tanto homem, como mulher, ou que Riobaldo, seja tanto jagunço, como fazendeiro, também aparecem em Deus e o Diabo, não somente na dualidade da voz de Othon Bastos, mas também no conflito entre Antônio das Mortes e Manuel, o matador de cangaceiros e o vaqueiro são personagens igualmente condicionados por deus e o diabo, um na forma de agir, outro no modo de pensar.
Para Aguilar, são duas dimensões do mesmo personagem, projeções das duas cabeças de Corisco, pois o que Manuel ouve de Sebastião: “Você foi enviado pra ser minha força no sofrimento e na guerra. Você tem de lutar por mim!”, é quase o mesmo que o que ouve de Corisco: “Parece que São Jorge tá me ajudando. Precisamos dum cabra corajoso, um cabra da minha qualidade. Tou gostando da sua cara de macho”.
Ou ainda, o que Antônio diz ao cego Júlio: “Eu não queria mas precisava. Eu não matei os beatos pelo dinheiro. Matei porque não posso viver descansado com essa miséria” que também muito se aproxima do que grita Corisco: “Não deixo pobre morrer de fome!” e do que prega Sebastião: “Quem é pobre vai ficar rico no lado de Deus”. (AGUILAR, 1995, p. 109).
A esta coexistência promovida pelos discursos, Claudio Costa traz a observação das tomadas da câmera de Glauber, que se fixa através de elementos móveis, meios de transportes, que têm justamente a função de promover uma passagem, de fazer algo circular. E toda essa circulação ocorre para que a imagem surja, para que uma determinação se configure. A imagem-movimento tem por condição a passagem ou a troca que produz na aproximação de dois elementos mutuamente excludentes tais como: o vidente e o visível, o visível e o invisível, o homem e o mundo, a imagem e o som, a figura e o fundo, e assim por diante.
Nessa aproximação, uma instância pode se prolongar em outra de maneira que elas se tornem equivalentes e a circulação chegue a um fim ao se formalizar uma unificação. Nesse caso, a imagem só alcança designar, manifestar, ou, no máximo, significar o mundo, o real, o visível. Em outros casos, aproximados os domínios, uma diferença íntima entre os afetos permanece, fissura que jamais cicatriza e através da qual os domínios se comunicam e se revertem infinitamente. Nessa comunicação infinita as instâncias se transformam e o real, transfigurado, torna-se transreal. (COSTA, 2000, p. 133)
Finalmente, podemos afirmar que tanto Glauber Rocha, como leitor de Guimarães Rosa, agregou ao seu repertorio uma estética onde se privilegia a indeterminação, mostrando a incrível aderência da teoria de Iser, ao romance rosiano, pois, em literatura, a encenação torna concebível a extraordinária plasticidade dos seres humanos, que por possuir uma natureza determinável, podem expandir-se no raio praticamente ilimitado dos padrões culturais, ou seja, é da natureza humana e sua multiplicidade de padrões culturais possibilitar formação ilimitada e contínua do ser humano, e portanto da leitura ( e interpretação).
6. Referências bibliográficas
ALMEIDA, Leonardo Vieira de. “Diadorim: o pacto como emblema trágico do corpo”. Disponível em: http://www.filologia.org.br/ixcnlf/7/01.htm em 5/07/2009
AVELLAR, José Carlos. Deus e o diabo na terra do sol: a linha reta, o melaço de cana e o retrato do artista quando jovem. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.
BARROS, Luitgarde O. C. Derradeira Gesta, Lampião e Nazareno: Guerreando no Sertão. Rio de Janeiro: Mauad, 2000.
COSTA, Claudio da. Cinema brasileiro: dissimetria. Oscilação e simulacro. Rio de Janeiro: 7 letras, 2000.
COSTA, Marta M. de. “(A) Claráguas ou A simbologia do elemento aquático em Grande sertão: veredas”. In: Revista Estudos Brasileiros, Curitiba, volume 3, nº 4, p. 225-254, 1977
FREGE, G. Sobre sentido e a referência. São Paulo: Cultrix, 1978, p. 59-86.
GUIMARÃES ROSA, João. Grande sertão: veredas. Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=23499, em 27/07/2009.
ISER, Wolfgang. “A Interação do Texto com o Leitor”. In. : LIMA, Luiz Costa (org.). A literatura e o leitor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
____O fictício e o imaginário. Perspectivas de uma Antropologia Literária. Rio de Janeiro: EdUERJ. 1996a.
____ O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo, Ed.34, 1996b.
____O ato da leitura: uma teoria do efeito estético – vol.2. São Paulo: Ed. 34, 1999.
____ Rutas de la interpretación. México: Fondo de Cultura Económico, 2005.
____ “Os atos de fingir ou o que é fictício no texto ficcional” In: LIMA, Luiz Costa. Teoria da Literatura em suas fontes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
LOYOLLA, Dirlenvalder do Nascimento. “Diadorim, pássaro, ente da natureza”. Disponível em: www.ichs.ufop.br/semanadeletras/viii/arquivos/indiceanais.htm em 27/07/2009
MACHADO, Maria Christina Matta. As táticas de guerra dos cangaceiros. São Paulo: Brasiliense, 1978.
MARÇOLLA, Bernardo Andrade. “A porosidade poética de Riobaldo, o cerzidor: Ritmo, transcendência e experiência estética em Grande sertão: veredas”. Disponível em http://www.scribd.com/doc/9010503/Entre-Guimaraes-Rosa-e-Riobaldo-a-porosidade-poetica-Bernardo-Marcolla em 27/07/2009.
MELLO, Frederico Pernambucano. Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil. São Paulo: A girafa, 2005.
ROCHA, João Cesar de Castro. Teoria da ficção: Indagações à obra de Wolfgang Iser. Rio de Janeiro: UERJ, 1999.
VENTURA, Tereza. A poética polytica de Glauber Rocha. Rio de Janeiro: Funarte, 2000.
ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da literatura. São Paulo, Ática, 1989.
LUIZ ROBERTO ZANOTTI
Doutorando no PPG em Letras: Estudos Literários (UFPR)
Introdução
O objetivo deste trabalho é apresentar como a idéia da coexistência de elementos mutuamente excludentes, da forma como nos é apresentada através das palestras de Wolfgang Iser por ocasião do VII Colóquio UERJ , se encontra presente, tanto em Grande sertão: veredas (1956) de João Guimarães Rosa, como também é utilizada por Glauber Rocha em seu longa metragem Deus e o diabo na terra do sol (1964) .
Para isto, inicialmente traçamos uma ligeira revisão da teoria iseriana desde o aparecimento da teoria dos efeitos (reader-response criticism), que enfoca a assimetria entre texto e leitor, até o conceito de antropologia literária, que trata da interação entre o fictício e o imaginário.
É importante notar, que mais do que trabalhar na interpretação destas duas obras de arte, procuramos aplicar a teoria de Iser como uma explicação para o fenômeno da coexistência de elementos mutuamente exclusivos, pois como o próprio Iser afirma: “É importante notar que tanto as teorias do efeito estético e a antropologia literária são basicamente constructos, ora, constructos não são necessariamente descrições de ocorrências empíricas”. (ISER in ROCHA, 1999, p. 47)
Iser mostra, no percurso da sua obra, toda a sua orientação teórica heurística, mantendo um certo afastamento de instrumentos interpretativos, através dos quais diferentes estruturas de constituição de sentido são examinadas e, logo, decodificadas, ou seja, com o analista se obrigando a fornecer uma interpretação para um determinado texto.Dessa forma, a teoria de Iser está muito mais voltada para pressupostos heurísticos capazes de descrever qualquer gênero de produção de sentido, ou seja, para investigar as condições mais gerais ( e portanto mais abstratas) que possibilitam o próprio ato interpretativo. (SCHOLLHAMMER in ROCHA, 1999, p. 119)
Seguindo um raciocínio semelhante, João César Rocha lembra que Iser tem elaborado uma reflexão que, a exemplo do objeto investigado, se modifica, incorpora novos conceitos, retoma preocupações, aprofundando seu alcance e redefinindo suas prioridades numa rara lição de precisão teórica que continuamente se adapta a “indecibilidade” do objeto (ROCHA, 1999, p.14).
Enfim, a teoria de Iser se limita através de um esforço heurístico a constituir esquemas com a finalidade de mapear a realidade e, portanto, a abordagem iseriana não pretende interpretar realizações determinadas, mas, pelo contrário, almeja fornecer um sistema de referências no âmbito no qual aquelas realizações adquirem especificidade, ou seja, não se trata de elaborar métodos particulares de interpretação, mas de mapear as disposições mais básicas no interior das quais o ato interpretativo se torna concebível, e até mesmo necessário.
1. A teoria dos efeitos (A interação entre o leitor e o texto)
Pode-se dizer que tanto a teoria dos efeitos de Iser, como a estética da recepção, que tem como o seu principal artífice Hans Robert Jauss, são em grande parte, inspiradas em Hans-Georg Gadamer; mas enquanto a estética da recepção se articula a partir da reconstrução histórica de juízos de leitores particulares, objetivando verificar o modo como se processa a interação das expectativas tradicionais do leitor frente a um texto específico, ou seja, através da análise da fusão dos horizontes de expectativa com o ato de leitura; a estética do efeito é trabalhada a partir do texto, uma vez que ela pretende elaborar uma descrição da interação fenomenológica que ocorre entre texto e leitor.
Iser elabora o constructo da existência de uma assimetria inicial entre texto e leitor, sendo que a estética do efeito almeja compreender o ato de leitura como uma forma particular de negociação daquela assimetria. Para tanto, investiga a estrutura própria dos textos literários, valorizando a interação específica que tal estrutura provoca.
Em suma, enquanto a estética da recepção trabalha com atos de leitura historicamente verificáveis, a teoria do efeito estético busca o estabelecimento de um modelo genérico que dê conta do próprio ato de leitura de textos literários, independentemente de seus contextos particulares de atualização. A teoria de Iser analisa o efeito estético como relação dialética entre texto e leitor, uma interação que ocorre entre ambos, ou seja, ainda que se trate de um fenômeno desencadeado pelo texto, a imaginação do leitor é acionada, para dar vida ao que o texto apresenta e reagir aos estímulos recebidos.
Do ponto de vista epistemológico, essa metáfora da interação designa uma instância textual que guia a recepção do texto e um leitor que "processa" ativamente o texto. Para Iser, quando produtiva, essa interação entre duas instâncias (agencies) se apóia na negatividade e na indeterminação enquanto modos de contato. Da mesma maneira que um texto bem-sucedido ultrapassa as fronteiras das determinações históricas e culturais, uma leitura produtiva processa e, com isso, muda ativamente o que é "manifesto" num texto. Gabriele Schwab lembra que para Iser: a determinação nos decepciona num texto tanto quanto numa leitura. (SCHWAB in ROCHA, 1999, p.37)
Ao se reportar à decepção com os textos “determinados” que oferecem uma simples busca da mensagem e do sentido, e propor o constructo da interação texto-leitor, Iser deixa claro a importância que credita à indeterminação de um texto, o que como veremos adiante possibilita a idéia da coexistência de elementos mutuamente excludentes. Iser, no primeiro capítulo “Arte parcial- A interpretação universalista” do livro O ato de leitura (1996) apresenta a inadequação do gesto da interpretação teórica da literatura que busca as significações aparentemente ocultas nos textos literários, tomando como exemplo o conto The figure in the carpet (1896), de Henry James, onde o autor problematiza a procura por significações ocultas nos textos − o que provavelmente desempenhou um papel importante na crítica literária de sua época −, mostrando a sua inadequação (ISER, 1996b, p. 23).
Assim, uma vez perdido o solo firme do “essencialismo” e com o texto deixando de ser o foco principal da análise, esta passa para o leitor em sua interação com o texto; e ciente que nenhuma história pode ser contada na íntegra, Iser vai trabalhar com o constructo de um texto que é pontuado por hiatos, lacunas e negatividades que têm de ser negociados no ato da leitura. A lacuna (vazio) no texto ficcional induz e guia a atividade do leitor com a suspensão da conectibilidade entre segmentos de perspectivas, possibilitando a participação do leitor no texto; enquanto a negatividade significa a não realização de um procedimento (que é esperado pelo leitor), isto é, a sua realização negativa com a intenção de empurrar o leitor para fora do texto.
Toda esta estrutura, segundo Schwab traz um aspecto fundamental na obra iseriana que mostra a sua tentativa de evitar as armadilhas da manifestação concreta e, em última instância, solapar qualquer forma de determinação, e cita: "o que a linguagem diz é transcendido por aquilo que ela revela, e aquilo que é revelado representa o seu verdadeiro sentido" (SCHWAB in ROCHA, 1999, p. 35).
2. A interação entre o fictício e o imaginário
A interação do fictício com o imaginário, assim como a interação leitor-texto, também abre vários espaços para a indeterminação, e a origem deste novo constructo “interação fictício-imaginário” se encontra no fato da teoria do efeito estético não conseguir explicar a aparente necessidade dos seres humanos por um meio de "fingimento" (ficção), uma característica que aparece nas investigações de Iser sobre o que de fato acontece quando lemos.
A partir desse pressuposto, Iser amplia o horizonte da teoria do efeito estético, a fim de transformar o estudo da estrutura dos textos literários e, sobretudo, da interação entre texto e leitor, numa investigação dos modos de operação que caracterizam o desenvolvimento de disposições propriamente humanas, apresentada em O fictício e o imaginário: perspectivas de uma antropologia literária (1996).
Neste ensaio, Iser apresenta a idéia de que a narração se encontra na fronteira que delimita o ficcional, o imaginário e a realidade, tornando possível a caracterização do referencial reportado, mas sem a possibilidade de ser por ele determinado, afirmando assim a proximidade entre os textos ficcionais e não-ficcionais, uma vez que eles são apenas materiais para a intenção do autor quando seleciona estes elementos que vão aparecer na narração, pois, não há representação puramente concebida, re-presentada.
O processo de elaboração do texto ficcional é bastante complexo, podendo ser caracterizado como uma travessia de fronteiras entre dois mundos, que sempre inclui, o mundo que foi ultrapassado e o mundo alvo a que se visa, que tanto pode se relacionar a uma mentira que busca exceder a verdade, como uma ultrapassagem do mundo real. Para se perceber as implicações destas duplicações é importante notar que os atos de fingir, componente básico dos textos literários, oferecem diferentes áreas para o jogo.
O fictício para realizar o que tem em mira, depende do imaginário − que não é auto-ativável −, pois o que tem em mira só aponta para alguma coisa que não se configura em decorrência de se estar apontando para ela: é preciso imaginá-la. O horizonte de possibilidades prefigurado pela transgressão de fronteiras inevitavelmente modifica as realidades que foram ultrapassadas, sendo que o imaginário só pode ser apreendido por meio de seus efeitos que uma vez ativados, faz com que o que era não possa permanecer o mesmo.
Sendo assim, a ativação desse potencial precisa ser moldada, e disso se encarregam os “atos de fingir”, ao forçarem a fantasia a assumir uma forma, para que as possibilidades abertas por eles possam ser concebidas, já que o próprio ato de fingir não pode conceber aquilo para o que ele apontou. A imposição de forma tem um duplo efeito: torna concretas as várias transgressões de fronteira, ao mesmo tempo, que converte o fictício num meio para que o imaginário se manifeste. (ISER in ROCHA, 1999, p. 71)
Vista sob esta perspectiva a literatura não reproduz ou espelha nada fora dela, mas antes apresenta algumas ilimitadas possibilidades que existem além das manifestações históricas concretas, sejam relativas aos sujeitos individuais, sejam referentes às culturas, e daí abre-se a possibilidade do aparecimento da coexistência de elementos opostos, que a princípio, dentro de uma filosofia cartesiana e dicotômica deveriam ser mutuamente excludentes.
Dessa forma, numa primeira abordagem pode-se dizer que enquanto o fictício se manifesta de uma maneira intencional, o imaginário trabalha de uma forma espontânea, com ambos fazendo parte de uma interação que se expande continuamente através de um jogo que tem o papel de uma estrutura reguladora da interação. Este jogo possui regras e os jogadores têm de obedecê-las na tentativa de saber que questão é essa. “Não existem respostas definitivas. Ao invés de um discurso vitimador, uma consciência crescente que num mundo aberto as soluções são, na melhor das hipóteses, provisórias, inexistindo respostas conclusivas” (ISER in ROCHA, 1999, p. 217).
Iser desenvolve a interação do fictício com o imaginário, apesar da dificuldade de qualquer afirmação de suas naturezas ontológicas, pois só podemos apreendê-los mediante uma descrição operacional das suas manifestações, através do jogo (play), uma estrutura capaz de propiciar diferentes tipos de interação, quer entre o texto e o leitor, quer entre o fictício e o imaginário. Isso significa que a “ficcionalização” sempre está sujeita a mudanças, em decorrência de sua inabilidade para controlar o alvo a que visava. O jogo emerge da coexistência do fictício e do imaginário que se fundem, visto que cada um é em si mesmo incapaz de cumprir qualquer função específica, sendo necessária a sua interação para desencadear aquele movimento de jogo.
Assim, num universo ficcional indeterminado, dentro de uma ilimitada perspectiva de interpretação apoiada pela dinâmica semântica fornecida pelo jogo interpretativo, e pelas mudanças constantes de realizações imaginárias, aparece a condição de existência para a “coexistência de elementos mutuamente excludentes”, um conceito, que segundo Jean Paul Riquelme não pode ser previsto por Aristóteles, pois ao contrário da mimesis; Iser mostra, desenleaando a trama aristotélica, que a leitura da literatura é múltipla, podendo chegar-se ao final dela, sem nunca esteja terminada, à semelhança das histórias que contava Sherazade (RIQUELME in ROCHA, 1999, p. 215).
Dentro, deste panorama, que Riquelme chama a “Antropologia literária” de um “espaço não-euclidiano” , pois Iser apresenta a noção da possibilidade da coexistência de termos excludentes como uma importante propriedade da obra literária, e porque não dizer da obra de arte em geral: A ficcionalidade como coexistência ou simultaneidade de elementos mutuamente excludentes, tradução de alguma coisa para outro registro, escapa a fundamentação ontológica (coisificação) e estimula a necessidade de compreendê-lo (ato de tradução correspondente a ausência de qualquer totalidade). (ISER in ROCHA, 1999, p. 221), ou como Oscar Wilde indicou: “uma verdade na arte é uma afirmação cujo oposto também é verdadeiro” (WILDE citado em ROCHA, 1999, p. 216).
Assim sendo, Iser se libertando das muletas literárias, vai trabalhar nas suas obsessões de dissolver as fronteiras, limites, e teorias levadas ao limite que estão relacionadas a resistência a movimentos essencialistas, totalizantes e ontológicos; vai trabalhar a literatura como uma obra em movimento; e assumir a importância da indeterminação e da coexistência de termos mutuamente excludentes, [...]. (SCHWAB in ROCHA, 1999, p. 227)
3. A coexistência de elementos mutuamente excludentes em Grande sertão
A seguir apresentamos alguns poucos exemplos da coexistência de elementos mutuamente excludentes dentro de uma gama infinita, mostrando que a lógica dicotômica não deve ser vista como a única alternativa para apreensão do real. Esta coexistência que aproxima e afasta elementos contraditórios e aparentemente incompatíveis já pode ser percebida no fragmento: “Família. Deveras? É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é… Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses.” (GUIMARÃES ROSA , 1994, p. 201).
Em Grande Sertão, o leitor é convidado a rever alguns aspectos e reelaborar idéias, tais como o rompimento com visões dicotômicas como bom x ruim, feio x belo, uma vez que apresenta os tais atributos numa mesma pessoa, ou seja, o sertão de Guimarães tanto pode ser local físico em Minas Gerais como a imagem de um ser (tão) existencial.
Marta Costa (1997) apresenta esta coexistência através do elemento água, que ao mesmo tempo é passivo e feminino; a água também está ligada à formação da vida, devido a seu incessante movimento de fluir, mas aqui também aparece a sua dupla função, pois durante a imersão se liga ao aniquilamento, na perda de forma e conseqüentemente a morte.
É o rio Urucuia, espaço aquático inicial, medial e final da trajetória de Riobaldo. À cor de suas águas, a seu leito navegável, à região que banha, soma-se a presença de Otacília, imagem idealizada da mulher amada, ninfa, dessas águas. Mas ele é também um rio ambíguo. Se Otacília é a paz dos "remansos” do Urucuia, Diadorim é as suas sombras. Neste espaço, quando criança e adolescente, Riobaldo adquiriu os elementos; que o qualificariam para a vida adulta: a cultura, a destreza nas armas, o anseio de uma vida calma. Às suas margens surgem valores opostos: o fazendeiro/o jagunço; o homem com "status" social/ o marginal; o bem estar/a aventura, o ficar/ o ir e vir. (COSTA, 1997, p. 240)
Loyolla (2009) trabalha esta coexistência através do relacionamento entre Riobaldo e Diadorim trazendo o aspecto da dualidade ativo-passivo, masculino-feminino que permite a recorrência aos mitos primordiais, cujos heróis como Vaishvanara, Shiva, P’an-ku e Lao-kiun, tinham o olho direito ligado ao Sol e o esquerdo a Lua, sendo que a primeira correspondência aponta para o futuro, para o princípio masculino, para a autoridade e a segunda para o passado, regendo atividades associadas ao princípio feminino, à fecundação.
Assim sendo Diadorim mostra-se benevolente e terrível ao mesmo tempo. Ao lado de sua forma ameaçadora, em sua vontade inflexível de guerrear, apresenta-se uma forma graciosa. Ao mesmo tempo em que não mantém uma postura de piedade diante do inimigo — conduta supostamente feminina — parecendo inumana, sustenta com Riobaldo um relacionamento terno e de grande intimidade com a natureza, constituindo-se uma tensão entre a dimensão mortífera e a vital. (LOYOLLA, 2009)
Assim, Diadorim, as vezes invoca a dor e o ódio e as vezes o júbilo e o amor, mas essa oscilação de papéis não se restringe à personagem Diadorim; pois a própria imagem do jagunço, assim como a do cangaceiro, é ambígua em sua função. Como exemplo, podemos citar o cangaceiro Lampião, uma figura histórica que oscila entre um personagem reconhecido como herói ou retratado como vilão.
Renomados historiadores e antropólogos, tais como, Luitgarde Barros (2000), Frederico Mello (2005) e Maria Christina Machado (1978), entre outros, possuem diferentes visões sobre este assunto, sendo que os primeiros ressaltam o seu caráter ligado ao banditismo , enquanto Machado apresenta, dentro de uma perspectiva marxista, Lampião não como um fato isolado, mas sim como o resultado de uma época em que se processava a luta surda, empreendida pelo vaqueiro contra o senhor da terra. (MACHADO, 1978, p. 6).
Antonio Candido também ressalta esta coexistência ao falar desta ambigüidade da mulher-homem que é Diadorim; ambigüidade metafísica, que balança Riobaldo entre deus e o diabo, entre a realidade e a dúvida do pacto, dando-lhe o caráter de iniciado no mal para chegar ao bem, ambigüidade inicial e final do estilo, popular e erudito, arcaico e moderno, claro e escuro, artificial e espontâneo. (CANDIDO citado em MARÇOLLA, 2009).
Leonardo Almeida (2009) vai se apoiar na tabula smaradigma , para notar que no fragmento “Ouro e prata que Diadorim aparecia ali” (R., p.405) configura a coexistência do masculino com o feminino que se faz da seguinte forma: “masculino: o sol, ouro, o fogo, o ar, o rei, o espírito de enxofre; feminino: a luz, a prata, a terra, a água, a rainha, o espírito de mercúrio” (BRANDÃO citado em ALMEIDA, 2009). Ouro associado ao princípio masculino e ao espírito de enxofre; a prata ao princípio feminino e ao espírito de mercúrio.
Enfim, na tentativa de visualizar o processo pelo qual o real, o fictício joga com o imaginário nessas diversas leituras, é interessante notar que Loyolla (2009) apresenta a pedra ametista, como um elemento que ajuda a elucidar o comportamento ambíguo de Diadorim, que às vezes é dócil e às vezes é seco, pronto para matar e vingar. Esta pedra corresponde na astrologia ao planeta Vênus que faz duas aparições nas duas extremidades do dia, sendo por isso conhecido como estrela da manhã e estrela da tarde, o que faz dele um símbolo de morte e renascimento. “Como deusa da tarde, sob a influência da lua, favorece o amor e a volúpia — uma divindade do prazer; como deusa da manhã, em virtude de seu parentesco com o sol, preside os atos de guerra e massacre. Assim em Diadorim, ora suas qualidades guerreiras se impõem, ora ela se permite ao prazer” (LOYOLLA, 2009).
Essa dualidade estrela da manhã e estrela da tarde parece ser uma das grandes coincidências entre esta interpretação proposta por Loyola e o comentário efetuado por Schollhamer (ROCHA, 1999, p. 118), para quem, Gotlib Frege (1978) tem uma grande influência na teoria de Iser:
[...] os significados são distinguíveis da referência, pois diferentes signos podem se referir aos mesmos objetos, como é o caso das duas frases para se referir ao planeta “Venus”. Para se explicar a diferença cognitiva entre as duas frases, é necessário considerar o conteúdo dos signos e não eles próprios através de uma explicação não metalinguística das sentenças. Sentido é um conteúdo cognitivo suplementar ao objeto, assim, estrela da manhã e estrela da tarde falam do mesmo objeto e dividem o mesmo conteúdo semântico, portanto elas tem o mesmo objeto (referente), por via sentidos diferentes.(FREGE, 1978).
4. Coexistência de elementos mutuamente excludentes em Deus e o diabo.
Glauber Rocha ao filmar Deus e o Diabo vai buscar uma situação em que, segundo Avellar, a relação espectador/filme parte de um sentimento idêntico: o filme como uma expressão incompleta, melaço de cana, para ser refinada pelo espectador. Um provocador onírico, pois o filme é também um provocador crítico, e cita o próprio Glauber: “Na medida em que se dá ao espectador um tipo acabado [...], um tipo reduzido, um tipo estratificado, um tipo dentro dessa tradição, não se dá a menor possibilidade de diálogo com o espectador, porque se coloca [...] (AVELLAR, 1995, p. 17)
Da mesma forma como observou certa vez Marcel Duchamp, "o artista não é o único a realizar o ato de criação porque o espectador interpreta e decifra suas significações profundas e acrescenta assim sua própria contribuição ao processo criativo", Glauber vê a criação como uma série de esforços, de dores, de satisfações, de negações, de decisões que não podem nem devem ser plenamente conscientes, pelo menos no plano estético. A obra é a expressão em estado bruto, que deve ser refinada pelo espectador pois: "Liberta pela imaginação o que é proibido pela razão" (GLAUBER citado em AVELLAR, 1995, p. 59)
Mas esta liberdade oferecida pela imaginação não significa para Glauber, assim como já vimos em Iser, que o filme altere a realidade, pois para ele sempre existe o aproveitamento e desenvolvimento de elementos reais:
Não há uma só coisa no filme que não corresponda a um dado real e concreto, inclusive o próprio fato do cangaceiro girar. Por que escolhi o Corisco? O Corisco tinha todas aquelas características que me interessavam: era um sujeito rápido, ágil, místico, histérico e verboso. Tinha tudo isso, se chamava Corisco porque ninguém acertava nele: andava rodando mesmo. (GLAUBER citado em AVELLAR, 1995, p. 87).
Mas Corisco é a própria constatação da coexistência de elementos mutuamente excludentes pois, no filme, o ator Othon Bastos que encena a personagem Corisco, além de emprestar a sua voz a sua própria personagem, faz ainda uma outra voz, a do Santo Sebastião - algo mais grave que a de Corisco, a idéia de usar a mesma voz para deus e para o diabo, segundo Avellar (1995, p. 22) surgiu somente durante a montagem, de modo a que o espectador pudesse identificar uma certa semelhança entre as propostas e mais rapidamente concluir com o filme que a terra é do homem, nem de deus nem do diabo.
Esta coexistência, segundo Claudio da Costa, também pode ser percebida em um espelhamento de uma na outra, pois enquanto Sebastião tem parte com Deus e com o Diabo, como diz Antônio das Mortes, Corisco é o diabo que foi possuído por São Jorge. Esses espelhamentos dobram em ambigüidades a palavra do cego e de seus mitos. A palavra mítica, afirma Luiz Costa Lima, é verdade e engano, simultaneamente. Com as palavras de Marcel Detienne, Costa Lima nos diz que, "no pensamento mítico os contrários são complementares" (COSTA LIMA citado em COSTA, 2000, p.68)
Deus e o diabo vai trabalhar com outras interações, além daquelas constatadas por Iser, pois a escrita da imagem é uma forma de jogo que afirma a interação infinita entre a palavra (som) e a imagem (fotografia), a conjugação em reversibilidade entre duas dimensões do audiovisual. Tal reversibilidade infinita torna possível a coexistência dos elementos contrários, pois como vimos, Glauber cria uma imagem onde o espectador descobre que não está a ser imposta uma visão dirigida como um produto concluído do autor, buscando eliminar a idéia do espectador como um ser que contempla, de maneira semelhante com que Guimarães Rosa trabalha na indeterminação. O artista quer expulsar e revelar no homem seu conflito e inconformismo com o mundo e impulsioná-lo ao desconhecido.Neste sentido, a coexistência dos excludentes trabalha no sentido de quebrar a resistência, a automação da consciência, na desconstrução do caráter normativo das coisas, a fim de abrir espaço para o novo: “Pela arte é possível "pensar a natureza e o absurdo" (GLAUBER citado em VENTURA, p. 170).
A “desrazão” que possibilita a coexistência dos excludentes faz parte da estética de Glauber que reivindica a libertação das variações ideológicas da razão e que promova a fusão do humano ao cosmos. A revolução explicita que a pobreza é um fenômeno da razão dominadora que recusa o desconhecido, classificando-o como irracional. A revolução é a "desrazão" que liberta o homem da razão repressiva. Ela se faz na imprevisibilidade (VENTURA, 2000, p. 284).
5. Conclusão
Assim, a existência dos mutuamente excludentes que aparecem em Grande Sertão, fazendo que em Diadorim seja tanto homem, como mulher, ou que Riobaldo, seja tanto jagunço, como fazendeiro, também aparecem em Deus e o Diabo, não somente na dualidade da voz de Othon Bastos, mas também no conflito entre Antônio das Mortes e Manuel, o matador de cangaceiros e o vaqueiro são personagens igualmente condicionados por deus e o diabo, um na forma de agir, outro no modo de pensar.
Para Aguilar, são duas dimensões do mesmo personagem, projeções das duas cabeças de Corisco, pois o que Manuel ouve de Sebastião: “Você foi enviado pra ser minha força no sofrimento e na guerra. Você tem de lutar por mim!”, é quase o mesmo que o que ouve de Corisco: “Parece que São Jorge tá me ajudando. Precisamos dum cabra corajoso, um cabra da minha qualidade. Tou gostando da sua cara de macho”.
Ou ainda, o que Antônio diz ao cego Júlio: “Eu não queria mas precisava. Eu não matei os beatos pelo dinheiro. Matei porque não posso viver descansado com essa miséria” que também muito se aproxima do que grita Corisco: “Não deixo pobre morrer de fome!” e do que prega Sebastião: “Quem é pobre vai ficar rico no lado de Deus”. (AGUILAR, 1995, p. 109).
A esta coexistência promovida pelos discursos, Claudio Costa traz a observação das tomadas da câmera de Glauber, que se fixa através de elementos móveis, meios de transportes, que têm justamente a função de promover uma passagem, de fazer algo circular. E toda essa circulação ocorre para que a imagem surja, para que uma determinação se configure. A imagem-movimento tem por condição a passagem ou a troca que produz na aproximação de dois elementos mutuamente excludentes tais como: o vidente e o visível, o visível e o invisível, o homem e o mundo, a imagem e o som, a figura e o fundo, e assim por diante.
Nessa aproximação, uma instância pode se prolongar em outra de maneira que elas se tornem equivalentes e a circulação chegue a um fim ao se formalizar uma unificação. Nesse caso, a imagem só alcança designar, manifestar, ou, no máximo, significar o mundo, o real, o visível. Em outros casos, aproximados os domínios, uma diferença íntima entre os afetos permanece, fissura que jamais cicatriza e através da qual os domínios se comunicam e se revertem infinitamente. Nessa comunicação infinita as instâncias se transformam e o real, transfigurado, torna-se transreal. (COSTA, 2000, p. 133)
Finalmente, podemos afirmar que tanto Glauber Rocha, como leitor de Guimarães Rosa, agregou ao seu repertorio uma estética onde se privilegia a indeterminação, mostrando a incrível aderência da teoria de Iser, ao romance rosiano, pois, em literatura, a encenação torna concebível a extraordinária plasticidade dos seres humanos, que por possuir uma natureza determinável, podem expandir-se no raio praticamente ilimitado dos padrões culturais, ou seja, é da natureza humana e sua multiplicidade de padrões culturais possibilitar formação ilimitada e contínua do ser humano, e portanto da leitura ( e interpretação).
6. Referências bibliográficas
ALMEIDA, Leonardo Vieira de. “Diadorim: o pacto como emblema trágico do corpo”. Disponível em: http://www.filologia.org.br/ixcnlf/7/01.htm em 5/07/2009
AVELLAR, José Carlos. Deus e o diabo na terra do sol: a linha reta, o melaço de cana e o retrato do artista quando jovem. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.
BARROS, Luitgarde O. C. Derradeira Gesta, Lampião e Nazareno: Guerreando no Sertão. Rio de Janeiro: Mauad, 2000.
COSTA, Claudio da. Cinema brasileiro: dissimetria. Oscilação e simulacro. Rio de Janeiro: 7 letras, 2000.
COSTA, Marta M. de. “(A) Claráguas ou A simbologia do elemento aquático em Grande sertão: veredas”. In: Revista Estudos Brasileiros, Curitiba, volume 3, nº 4, p. 225-254, 1977
FREGE, G. Sobre sentido e a referência. São Paulo: Cultrix, 1978, p. 59-86.
GUIMARÃES ROSA, João. Grande sertão: veredas. Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=23499, em 27/07/2009.
ISER, Wolfgang. “A Interação do Texto com o Leitor”. In. : LIMA, Luiz Costa (org.). A literatura e o leitor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
____O fictício e o imaginário. Perspectivas de uma Antropologia Literária. Rio de Janeiro: EdUERJ. 1996a.
____ O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo, Ed.34, 1996b.
____O ato da leitura: uma teoria do efeito estético – vol.2. São Paulo: Ed. 34, 1999.
____ Rutas de la interpretación. México: Fondo de Cultura Económico, 2005.
____ “Os atos de fingir ou o que é fictício no texto ficcional” In: LIMA, Luiz Costa. Teoria da Literatura em suas fontes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
LOYOLLA, Dirlenvalder do Nascimento. “Diadorim, pássaro, ente da natureza”. Disponível em: www.ichs.ufop.br/semanadeletras/viii/arquivos/indiceanais.htm em 27/07/2009
MACHADO, Maria Christina Matta. As táticas de guerra dos cangaceiros. São Paulo: Brasiliense, 1978.
MARÇOLLA, Bernardo Andrade. “A porosidade poética de Riobaldo, o cerzidor: Ritmo, transcendência e experiência estética em Grande sertão: veredas”. Disponível em http://www.scribd.com/doc/9010503/Entre-Guimaraes-Rosa-e-Riobaldo-a-porosidade-poetica-Bernardo-Marcolla em 27/07/2009.
MELLO, Frederico Pernambucano. Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil. São Paulo: A girafa, 2005.
ROCHA, João Cesar de Castro. Teoria da ficção: Indagações à obra de Wolfgang Iser. Rio de Janeiro: UERJ, 1999.
VENTURA, Tereza. A poética polytica de Glauber Rocha. Rio de Janeiro: Funarte, 2000.
ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da literatura. São Paulo, Ática, 1989.
Marcadores:
cangaço,
Glauber Rocha,
Guimarães Rosa,
Lampião
domingo, 17 de outubro de 2010
AUTO DE ANGICOS E A INTERMEDIAÇÃO DA VIOLÊNCIA
A peça a ser analisada, Virgolino e Maria: Auto de Angicos (2008), de Amir Haddad – é uma transposição do texto teatral Auto de Angicos (2006), de Marcos Barbosa, um texto que transformou todo o rumor e história acerca da personagem Lampião em um drama e mito, direcionando a platéia para fora da história e trazendo os eventos e temas da peça de acordo com a sua relevância para a realidade de nossa época, retomando a morte dos dois cangaceiros em Angicos, com uma mudança fundamental sobre a maioria das obras sobre Lampião no que diz respeito à forma da apreensão moral do mito, a partir de um novo Zeitgeist que se apresenta. A personagem Lampião deu origem a uma serie de significações, ou seja, diversas versões do mito.
Catherine Backès-Clément conceitua o mito como uma historia fictícia transmitida de geração em geração, remontando por isso mesmo a um passado original, indeterminado – que se aplica à antiguidade e sociedades indígenas – porém o mesmo parece questionável para as sociedades modernas através de sua materialização e com a possibilidade de determinação de sua origem através de uma documentação. Nesse tipo de sociedade não é só a intencionalidade dos produtores de mito, mas também a possibilidade de intervenção da própria personagem mitificada que projeta imagens que produziu para si próprio. (Backès_Clément citada em Luitgarde, 2000, p. 79)
É importante notar que quase todas as “biografias” de Lampião guardam semelhança em dizer que ele era um exímio cavaleiro, um almocreve que cruzava as fronteiras de Pernambuco, Alagoas e Sergipe, caminhos que conhecia como a palma da mão, deslocando-se na catinga com a naturalidade dos experimentados vaqueiros do Pajeú. Lampião é classificado por muitos como um cangaceiro movido pela vingança, um cangaço meio de vida e bandido manso, sendo que os Nazarenos, entre outros, eram apontados como poderosos e influentes, que com as suas perseguições, transformaram jovens alegres, honestos e trabalhadores em infelizes revoltados, corajosos vingadores da honra.
O mito Lampião é retratado nas mais diversas modalidades artísticas tais como o registro fotográfico elaborado por Benjamin Abrahão, poemas, músicas e livros, e até uma propaganda de um remédio que comparava os males que ele causava à sociedade com os distúrbios provocados pela prisão de ventre. Além disso, as suas ações são referenciadas por testemunhos orais de pessoas que com ele conviveram e noticiadas amplamente pela imprensa, o que segundo Mc Luhan não serve para dar status de realidades pois os produtos dos processos receptivos não são uma cópia de uma dada realidade (McLuhan):
[...] a realidade não é apreendida passivamente, mas vivida como construída, e as imagem do mundo assim produzida não se entende como reprodução, mas como produção, não em um sentido de uma ação intencional particular, mas como processo culturalmente mediado. Em outras palavras, a forma de experimentar o mundo depende das condições culturais da percepção, e, nesta perspectiva, processos midiáticos são vistos como fatores constitutivos e não reprodutivos da percepção. (MCLUHAN citado em OLINTO, 2009, p. 63)
Assim, todos estes relatos, ao invés de proporcionar uma forma mais nítida e cristalina da personalidade do cangaceiro acabaram por fortalecer uma imagem dicotômica de uma pessoa eminentemente boa ou decididamente má no imaginário coletivo. Lampião assume as tintas do bem ou do mal nas diversas artes, que como vimos vai da literatura de cordel até o cinema através de uma infinidade de papéis e caracterizações, que vão desde a sua apresentação como uma pessoa suave e delicada interiormente até a sua retratação como uma pessoa possuidora de uma violência impar.
Há pelo menos, dois Lampiões, um (real) que teve a sua existência real, que viveu todas as vicissitudes que um homem a margem da lei experimenta, e outro (mítico) que foi criado a partir de cada uma de suas façanhas efetivadas ou inventadas. Este último é um produto coletivo que vai cada vez mais sobrepujando o primeiro. Há uma abundante literatura sobre o cangaço, mas poucos oferecem um quadro histórico mais ou menos completo. Tem-se praticado em torno do cangaço ainda uma espécie de historia do tipo tradicional, ancorada nos heróis e nos seus grandes feitos, que faz com que a sua participação no imaginário continue crescendo.
Essa mitologização impregna a vários romances (história) como pode ser verificado, entre outros: em Lampião, Cangaço e Nordeste, de Aglae Lima de Oliveira; Lampião: Memórias de um soldado de volante, de João Gomes de Lira, no Lampião, de Ranulfo Prata.
Esse nascimento do mito pode ser observado no romance de Nertan Macedo, onde o cangaceiro é apresentado como alguém de índole boa, que somente depois de ter algum ente querido morto, resolve fazer a justiça com as próprias mãos:
[...] o velho José Ferreira acordava sempre muito cedo. E em certa ocasião, depois do aviso que lhes deram os filhos, levantou-se da rede e foi soprar o fogo para fazer café. [...], mal teve tempo de alçar a cabeça, para ver de onde partiam aqueles disparos. E quando os filhos menores acorreram, encontraram-no tombado numa poça de sangue. [...] Nessa madrugada nasceu realmente Lampião. (MACEDO, 1975, p. 38)
Essa imagem de alguém de boa índole também encontra ressonância numa imensa série de obras da literatura infantil, como por exemplo, Lampião e Maria Bonita: o Rei e a Rainha do Cangaço (2005), de Liliana Iacocca. Mas foram, sem sombra de dúvida, os escritores de cores marxistas que mitificaram o cangaceiro como um herói, um verdadeiro baluarte contra a dominação coronelista.
Conforme Vera Ferreira, filha de Lampião, (FERREIRA e AMAURI, 1999, p. 11): no Brasil, um país com larga tradição nos regimes totalitários, o culto de heróis e anti-heróis é constante desde há muito e alimenta a imaginação popular. Lampião é um produto das desigualdades sociais, da injustiça . A sangrenta profissão de bandido, outrora consagrada, na sua bravura instintiva e cega pelas cantigas populares do nordeste, com suas bravatas e façanhas selvagens, deixou de fascinar o sertanejo, cuja aspiração na vida se resumia na cartucheira cintada e rifle espelhado como pode ser constatado no poema abaixo que é atribuído a Lampião:
Eu me chamo Virgulino
Por alcunha Lampião
Sou cangaceiro afamado
Em todo alto sertão
Não levo em conta inimigo
E não encaro perigo
Estando de arma na mão (Virgulino Ferreira)
Essa imagem heróica de Lampião é retratada em As táticas de guerra dos cangaceiros (1978), de Maria Christina Matta Machado, num típico discurso da geração 68 na Universidade Brasileira mostra um Lampião desde pequeno preocupado com a justiça e como era injustiçado, em sua visão infantil, criou conceitos cada vez mais rígidos contra os potentados coronelistas e mesmo antes da morte de seu pai, já nutria ódio contra aqueles que oprimiam a população campesina, e em particular contra o capitão Lucena que não se contentou em forçar a retirada do seu pai do Pernambuco e contrariando as normas policiais atravessou as fronteiras e matou José Ferreira. A partir daquele instante morreria Virgulino Ferreira e nasceria Lampião (MATTA MACHADO, 1978, ps.22 a 24).
Dessa forma, o mito cooptado pelos escritos marxistas retrata alguém advindo de uma camada pobre da sociedade e que ao se deparar com toda a miséria e a injustiça social resolveu embarcar numa vida de crimes sem volta, se tornando uma espécie de “Robin Hood dos sertões”:
Lampião não pode ser visto como um fato isolado, mas sim como o resultado de uma época em que se processava a luta surda, empreendida pelo vaqueiro contra o senhor da terra. Daí se explica, talvez, a o motivo porque Lampião −uma fera humana segundo a imprensa da época −, era quase que venerado pelas populações mais pobres. Porque o pobre via em sua figura, a auto-afirmação, aquilo que cada um deles gostaria de fazer, mas tinha medo. Os sertanejos tinham o ideal de por um final na tirania dos coronéis e de sua política assassina e cruel: “Depois voltar para casa e viver a vida simples de sertanejo”. (MATTA MACHADO, 1978, p. 6)
Do outro lado, ou seja, o lado daqueles que acreditam que Lampião nada tem a ver com esta imagem "Robin Hood" esta, entre outros, Luitgarde Barros que em Derradeira Gesta, Lampião e Nazareno: Guerreando no Sertão (2007), vai criticar a posição de Maria Cristhina através das seguintes perguntas que não são os melhores indicativos para a repulsa de Lampião pelos potentados: “Porque Lampião procurou sempre acumular fortuna, impor terror, ser respeitado e famoso como os potentados? Por que queria ser “governador do sertão”? O que o fazia fascinado por patentes a ponto de exigir ser tratado por capitão, até o final da vida?” (BARROS, 2000, p. 82).
Para ele, o fato dos nordestinos mais pobres imigrarem para outras regiões se deve muito mais às ameaças de Lampião à sua sobrevivência, do que por causa da seca; posição que encontra eco em Pereira da Silva que na introdução de Lampião e a sociologia do cangaço, apresenta Lampião como possuidor de uma crueldade comparável a Hitler, e passivo de ser classificado, dentro dos quadros da psicopatologia, num quadro de sadismo: “Isto me faz pensar que não há uma só humanidade, mas duas: a do Bem e a do Mal. Felizmente pertencemos a primeira, pois nos repugna praticar semelhantes barbaridades” (PEREIRA da SILVA citado em CARVALHO, s/d., p. VII).
Marcos Barbosa vai transpor essa lendária relação entre Lampião e Maria Bonita para a contemporaneidade, transformando os protagonistas, que dentro do mito do Cangaço, às vezes assumem a posição de assassinos sanguinários, enquanto em outras são tidos como heróis, em um casal discutindo assuntos cotidianos e sonhos.
O autor direciona a platéia para fora da história e traz eventos e temas da peça de acordo com a sua relevância para a realidade de nossa época, retomando a morte dos dois cangaceiros em Angicos, com uma mudança fundamental sobre toda uma concepção ideológica de herói ou bandido, que ainda pode ser observada no filme Lampião, o rei do cangaço (1966) de Carlos Coimbra.
O diretor Amir Haddad traz o texto teatral Auto de Angicos, para o palco com a novidade de apresentar o casal de cangaceiros Lampião e Maria Bonita, longe dos padrões de linguagem e vestimenta estereotipados e que prevaleceram nas mais diversas áreas artísticas.
Assim, nesse sentido Haddad recria o texto de Barbosa, se afastando dos estereótipos de Lampião e Maria Bonita e o re-nomeia de Virgolino e Maria: Auto de Angicos, trazendo para o palco, não apenas a lenda, mas também dois seres humanos tão iguais a tantos outros. Essa concepção estética se afasta não só do filme Lampião, o rei do cangaço que em sua estética dramática busca criar a ilusão da personagem para o público, mas também do Auto de Angicos, que apesar da transposição do mito para a realidade atual efetuada por Barbosa, ainda apresenta uma forte característica dramática que pode ser notada através da sua estrutura dialógica. O trabalho de Haddad vai se tratar da supressão da ilusão dramática e dirigir os atores para uma encenação mais épica, numa estética pós-dramática, que não mais permite que o ator incorpore a personagem, ao mesmo tempo, que denúncia a forma dramática como uma dramaturgia a serviço da ideologia dominante.
Uma das estratégias utilizadas por Haddad para romper com essa perspectiva dramática do texto Auto de Angicos está em evitar o excesso de realismo, não caracterizando as personagens com roupas de cangaceiro ou com características físicas de Maria Bonita e Lampião. Na produção de Haddad, Virgolino é encenado por Marcos Palmeira – que está longe de ter um biótipo nordestino –, sem puxar pela perna e sem o problema do olho vazado, enquanto o papel de Maria, ao invés de ser representado por uma mulher tipicamente nordestina, foi entregue a Adriana Esteves, uma “menina loirinha suburbana ”.
A releitura do mito de Lampião efetuada por Haddad desvela o véu da ilusão proporcionado pelo cinema. Além disso, se conjugam linguagens cênicas em relação de intermidialidade, tais como a música popular, o gestual (junto com a iluminação e o cenário), a arte ritualística como na abertura peça, quando dois contra-regras desempacotam o cenário enquanto cantam a música Acorda Maria Bonita, do cangaceiro Volta Seca, e chamam o público para cantar e acompanhar com palmas a música, mostrando claramente que o espetáculo não vai buscar os recursos da mimesis.
Haddad lembra que, assim como uma mera re-contextualização do texto ou mudança midiática, necessariamente não determina uma abordagem cênica mais contemporânea e como exemplo comenta a respeito da montagem baiana de Auto de Angicos, que se distanciou bastante de uma perspectiva épica, para adotar uma encenação dramática, com as personagens Lampião e Maria Bonita caracterizadas, ou seja, buscando a “personificação” do ator a partir de trajes do cangaço, defeitos físicos de Lampião, e assim por diante. Dessa forma, Haddad, assim como Gatti (citado em SARRAZAC, 2002, p. 34), acredita que é preciso intervir na conversão das formas, pois cada assunto tem uma teatralidade que lhe é própria.
Haddad afirma ainda em sua entrevista, que evitou a todo custo o “diálogo realista”, buscando exprimir melhor a densidade de sentimentos que move os personagens e, sobretudo, valorizar a corpo, o movimento livre dos atores sem marcações, assim como no seu teatro de rua. “Seja num ambiente fechado ou de rua, o espetáculo tem que proporcionar uma verdade para cada um dos espectadores que deve ser apresentada nua e crua, e não colocada como uma essência que poucos poderão atingir”.
Dessa forma, Haddad se afasta da característica “nordestern” de Lampião, que traz implicitamente uma justificativa para a violência da personagem, como num dos hipotextos de Lampião, o rei do cangaço, o romance Lampião: Capitão Virgulino Ferreira (1975) de Nertan Macedo que, como já vimos, descreve o cangaceiro, como alguém de índole boa, que somente depois de ter algum ente querido morto, resolve fazer a justiça com as próprias mãos.
Dessa forma, longe de adotar uma posição nesta dicotomia “positivista” entre o bem e o mal, o texto de Barbosa não caracteriza Lampião nem como uma simples vítima da miséria e da injustiça social, nem como uma pessoa portadora de uma violência impar e sem sentido, como aparece na passagem que Maria Bonita lembra de um homem que Lampião matou:
MARIA. Amarrar o miserável do barbudo num poste e arrancar os olho dele a faca com as criança tudo vendo. Sangue espirrando pra todo lado... Não precisava daquilo não.
VIRGOLINO. Era o castigo dele.
MARIA. Castigo dele era morrer. Pronto. Não tinha que arrancar os olho do homem, ele ainda vivo, gritando, não. Depois ainda estourou a bala os dois olho largado no chão... Pra quê?
VIRGOLINO. É para dar o exemplo do traidor. Os outro sertão afora escuta que eu fiz aquilo, já não me trai mais.
MARIA. Tanto que eu pedi pra tu parar.
VIRGOLINO. Se eu for parar toda vez que tu pede...(BARBOSA, 2006 , p.23)
Essa passagem parece estar de acordo com o livro Pelo espaço do cangaceiro, Jurubeba, de Arthur Shaker, em que o próprio cangaceiro conta:
[...] que muitos gostavam dos cangaceiros, mas muitos não gostavam. E aqueles que não gostavam, queriam é acabar com a nação dos cangaceiros [...] todo mundo tinha medo de cangaceiro, eu mesmo tinha medo. [...] Saia a noticia que Lampião passou matando, roubando, tudo o que é ruim. Então a gente assustava, não tinha quem não tinha medo. (SHAKER citado em BARROS, 2000, p. 143)
Nessa passagem parece residir uma boa parte da busca de Barbosa em sua obra, em mostrar não só a discussão de um casal, mas também o medo como forma de controle e de poder, pois assim como conceitua o antropólogo Michael Taussig, em seu conceito de “espaço da morte”, mais do que uma violência gratuita, a violência se dá no jogo pelo poder:
O assassinato, a tortura e a feitiçaria são tão reais quanto a morte. O tema não trata da verdade do ser, mas o ser social da verdade. Não é verificar se os fatos são reais, mas a política de sua interpretação e representação. A enorme energia da historia confinada no “era uma vez”. A história que mostrava as coisas como elas “realmente eram” revelou-se o narcótico mais forte do nosso século (Benjamin). (TAUSSIG, 1993, p.15)
Taussig lembra que o processo de pensar gera novos começos, retornando a seu objeto original seguindo uma rota sinuosa, sendo que uma das características do terror é a inefabilidade, pois, à medida que não se consegue com palavras construir uma narrativa para esta sensação, o homem começa a imaginar, a construir alegorias. Taussig conceitua o “espaço da morte” como uma importante criação do significado e da consciência em sociedades onde a cultura do terror floresce. Quem está para morrer nas mãos do algoz, não acontece só fora do individuo , acontece dentro, criando uma ambiência para o leitor (TAUSSIG, 1993, p. 19-25).
Dessa forma, as culturas do terror são nutridas pela trama formada entre o silêncio e o mito, a ênfase do lado misterioso esta no rumor finamente tecido em teias de realismo mágico, fazendo com que Lampião consiga a pilhagem de alguns povoados, sem sequer precisar se utilizar da violência.
As atrocidades que Lampião efetuou, tais como: cortar "sangrar" as pessoas através de longos punhais enfiados corpo adentro entre a clavícula e o pescoço, a marcação de rostos de mulheres com ferro quente, o arrancar de olhos, o “cortar” de orelhas e línguas, e a castração de inimigos, tinha como propósito a criação do “espaço da morte”, como forma de impingir um temor mental agudo e grande parte da agonia física da morte, numa íntima dependência mútua entre a verdade e a ilusão e entre o mito e a realidade; tudo isto relacionado com o metabolismo do poder, para não falar da “verdade”:
Cruzar os dados relativos à verdade, nesse campo, é algo necessário, e é necessariamente uma tarefa de Sísifo, que ratifica uma objetividade ilusória, uma objetividade sujeita ao poder que, ao autorizar a cisão entre a verdade e a ficção, assegura o fabuloso alcance desse mesmo poder. A alternativa é ouvir essas histórias não como uma ficção ou como sinais disfarçados da verdade, mas como algo real. (TAUSSIG, 1993, p. 87)
No entanto, mesmo com a explicação antropológica para o uso da violência, Barbosa continua a evitar sentenciar moralmente Lampião, pois junta a toda essa violência uma faceta humana, ao mostrar o ambiente familiar entre os cangaceiros que riem, brincam, se divertem, cozinham, comem, lêem, dançam, fazem vaquejadas, bebem água como pessoas normais, tal como na passagem que Maria sugere uma festa para Lampião:
MARIA. É só pra animar. Pra tu não ficar desse jeito. Gosto de ver tu assim não.
VIRGOLINO. Depois nós conversa.
MARIA. Tu fala com Pedro de Cândido, manda arranjar um sanfoneiro.
VIRGOLINO. Sanfoneiro?
MARIA. Não pode não?
VIRGOLINO. É festa grande que tu está querendo, é?
MARIA. Grande, não. Festa pouca. Agora, custa arranjar um sanfoneiro? Melhor que ficar batendo forró em argola de fuzil.
Virgolino, brincando, levanta seu Mauser e procura a argola.[...]
VIRGOLINO. Olê, muié rendeira. Olê, muié rendá. Tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar/ (BARBOSA, 2006, p. 9)
Assim, Haddad, ao trazer momentos da intimidade do casal ao palco evita a perspectiva de uma configuração extremada entre o bom e o ruim, e a partir da constatação do caráter multifacetado do homem conceituado por Hall, faz a relação dicotômica entre o bem e o mal ficar mais porosa, e se aproximar da posição do filosofo alemão Friedrich Nietzsche que em Para além do bem e mal, examina civilizações de épocas passadas, depreendendo certos traços que são justamente distintos, que culminam em dois tipos fundamentais de moral, mas que não são mutuamente exclusivas, pois se mesclam até mesmo no interior de uma única alma humana:
Acrescento desde logo que, em todas as civilizações superiores e mais mistas, entram também em cena ensaios de mediação entre ambas as morais, e ainda mais freqüentemente a mescla de ambas e o recíproco mal-entendido, e até mesmo, às vezes, seu duro “lado a lado” – até no mesmo homem, no interior de uma única alma. (NIETZSCHE, 1981, p. 215)
Para Nietzsche, o escravo, o ressentido, o fraco, concebe primeiro a idéia de “mau”, com que designa os nobres, os mais fortes do que ele – e então, a partir dessa idéia, conclui, através da antítese, a concepção de “bom”, que se atribui a si mesmo. O forte, por sua vez, concebe espontaneamente o principio “bom” a partir de si mesmo e só depois cria a idéia de “ruim” como “uma pálida imagem-contraste”. Do ponto de vista do forte, “ruim” é apenas uma criação secundária, enquanto para o fraco “mau” é a criação primeira, o ato fundador de sua moral.
Assim, podemos dividir a abordagem do tema Lampião a partir de dois grandes grupos: A partir da impossibilidade da convivência entre o bem e o mau, como podemos perceber em Lampião; ou conforme Nietzsche, como uma questão perspectiva, que é mostrada em Virgolino. No espetáculo de Haddad, esse novo circuito de sentido é o próprio contexto teatral contemporâneo, que afrouxa as amarras do teatro dramático de sentido único, um teatro que institui determinadas verdades que não possibilitam qualquer tipo de reflexão e que não proporciona as mínimas condições e perspectivas de mudança.
Enfim, assim como Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas:
Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio de São Francisco – que de tão grande se comparece – parece é um pau grosso, em pé, enorme... Amável o senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.(ROSA, 2009, p. 608)
Ou ainda conforme a musica de Sergio Ricardo e Glauber Rocha em Deus e o diabo na terra do sol, que dentro de uma ideologia marxista, fecha a questão:
Tá contada a minha historia
Verdade, imaginação
Espero que o senhor tenha tirado uma lição
Que assim mal dividido
Este mundo anda errado
Que a terra é do homem
Não é de Deus, nem do diabo. (ROCHA, 1964)
REFERÊNCIAS
BARBOSA, Marcos. Auto de Angicos. Texto não publicado. s/d.
BARROS, Luitgarde O. C. Derradeira Gesta, Lampião e Nazareno: Guerreando no Sertão. Rio de Janeiro: Mauad, 2000.
CARVALHO, Rodrigues de. Lampião e a sociologia do cangaço. Rio de Janeiro: Editora do livro, s/d.
COIMBRA, Carlos. Lampião, o rei do sertão. São Paulo: Cinearte Produções Cinematográficas, 1962.
FERREIRA, Vera e AMAURY, Antonio. De Virgolino a Lampião. São Paulo; Idéia Visual, 1999.
GUIMARÃES ROSA, João. Grande Sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2008.
IACOCCA, Liliana e CAMPOS, Rosinha. Lampião e Maria Bonita: o Rei e a Rainha do Cangaço. São Paulo: Ática, 2005.
LEHMANN, Hans-Thies. Teatro pós-dramático. Trad. Pedro Süssekind. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
MACEDO, Nertan. Lampião: Capitão Virgulino Ferreira. Rio de Janeiro: Renes, 1975.
MACHADO, Maria Christina Matta Machado.As táticas de guerra dos cangaceiros. São Paulo: Brasiliense, 1978.
NIETZSCHE, Friedrich. Para além do bem e do mal. São Paulo: Hemus, 1981.
OLINTO, Heidrun. Literatura e mídia. Rio de Janeiro: Puc, 2009.
ROCHA, Glauber. Deus e o diabo na terra do sol. 1966.
SARRAZAC, Jean-Pierre. O futuro do drama: Escritas dramáticas contemporâneas. Trad. Alexandra Moreira da Silva. Porto: Campo das Letras, 2002.
TAUSSIG, Michael.Xamanismo, colonialismo e o homem selvagem. Trad. Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Paz e terra, 1993.
Catherine Backès-Clément conceitua o mito como uma historia fictícia transmitida de geração em geração, remontando por isso mesmo a um passado original, indeterminado – que se aplica à antiguidade e sociedades indígenas – porém o mesmo parece questionável para as sociedades modernas através de sua materialização e com a possibilidade de determinação de sua origem através de uma documentação. Nesse tipo de sociedade não é só a intencionalidade dos produtores de mito, mas também a possibilidade de intervenção da própria personagem mitificada que projeta imagens que produziu para si próprio. (Backès_Clément citada em Luitgarde, 2000, p. 79)
É importante notar que quase todas as “biografias” de Lampião guardam semelhança em dizer que ele era um exímio cavaleiro, um almocreve que cruzava as fronteiras de Pernambuco, Alagoas e Sergipe, caminhos que conhecia como a palma da mão, deslocando-se na catinga com a naturalidade dos experimentados vaqueiros do Pajeú. Lampião é classificado por muitos como um cangaceiro movido pela vingança, um cangaço meio de vida e bandido manso, sendo que os Nazarenos, entre outros, eram apontados como poderosos e influentes, que com as suas perseguições, transformaram jovens alegres, honestos e trabalhadores em infelizes revoltados, corajosos vingadores da honra.
O mito Lampião é retratado nas mais diversas modalidades artísticas tais como o registro fotográfico elaborado por Benjamin Abrahão, poemas, músicas e livros, e até uma propaganda de um remédio que comparava os males que ele causava à sociedade com os distúrbios provocados pela prisão de ventre. Além disso, as suas ações são referenciadas por testemunhos orais de pessoas que com ele conviveram e noticiadas amplamente pela imprensa, o que segundo Mc Luhan não serve para dar status de realidades pois os produtos dos processos receptivos não são uma cópia de uma dada realidade (McLuhan):
[...] a realidade não é apreendida passivamente, mas vivida como construída, e as imagem do mundo assim produzida não se entende como reprodução, mas como produção, não em um sentido de uma ação intencional particular, mas como processo culturalmente mediado. Em outras palavras, a forma de experimentar o mundo depende das condições culturais da percepção, e, nesta perspectiva, processos midiáticos são vistos como fatores constitutivos e não reprodutivos da percepção. (MCLUHAN citado em OLINTO, 2009, p. 63)
Assim, todos estes relatos, ao invés de proporcionar uma forma mais nítida e cristalina da personalidade do cangaceiro acabaram por fortalecer uma imagem dicotômica de uma pessoa eminentemente boa ou decididamente má no imaginário coletivo. Lampião assume as tintas do bem ou do mal nas diversas artes, que como vimos vai da literatura de cordel até o cinema através de uma infinidade de papéis e caracterizações, que vão desde a sua apresentação como uma pessoa suave e delicada interiormente até a sua retratação como uma pessoa possuidora de uma violência impar.
Há pelo menos, dois Lampiões, um (real) que teve a sua existência real, que viveu todas as vicissitudes que um homem a margem da lei experimenta, e outro (mítico) que foi criado a partir de cada uma de suas façanhas efetivadas ou inventadas. Este último é um produto coletivo que vai cada vez mais sobrepujando o primeiro. Há uma abundante literatura sobre o cangaço, mas poucos oferecem um quadro histórico mais ou menos completo. Tem-se praticado em torno do cangaço ainda uma espécie de historia do tipo tradicional, ancorada nos heróis e nos seus grandes feitos, que faz com que a sua participação no imaginário continue crescendo.
Essa mitologização impregna a vários romances (história) como pode ser verificado, entre outros: em Lampião, Cangaço e Nordeste, de Aglae Lima de Oliveira; Lampião: Memórias de um soldado de volante, de João Gomes de Lira, no Lampião, de Ranulfo Prata.
Esse nascimento do mito pode ser observado no romance de Nertan Macedo, onde o cangaceiro é apresentado como alguém de índole boa, que somente depois de ter algum ente querido morto, resolve fazer a justiça com as próprias mãos:
[...] o velho José Ferreira acordava sempre muito cedo. E em certa ocasião, depois do aviso que lhes deram os filhos, levantou-se da rede e foi soprar o fogo para fazer café. [...], mal teve tempo de alçar a cabeça, para ver de onde partiam aqueles disparos. E quando os filhos menores acorreram, encontraram-no tombado numa poça de sangue. [...] Nessa madrugada nasceu realmente Lampião. (MACEDO, 1975, p. 38)
Essa imagem de alguém de boa índole também encontra ressonância numa imensa série de obras da literatura infantil, como por exemplo, Lampião e Maria Bonita: o Rei e a Rainha do Cangaço (2005), de Liliana Iacocca. Mas foram, sem sombra de dúvida, os escritores de cores marxistas que mitificaram o cangaceiro como um herói, um verdadeiro baluarte contra a dominação coronelista.
Conforme Vera Ferreira, filha de Lampião, (FERREIRA e AMAURI, 1999, p. 11): no Brasil, um país com larga tradição nos regimes totalitários, o culto de heróis e anti-heróis é constante desde há muito e alimenta a imaginação popular. Lampião é um produto das desigualdades sociais, da injustiça . A sangrenta profissão de bandido, outrora consagrada, na sua bravura instintiva e cega pelas cantigas populares do nordeste, com suas bravatas e façanhas selvagens, deixou de fascinar o sertanejo, cuja aspiração na vida se resumia na cartucheira cintada e rifle espelhado como pode ser constatado no poema abaixo que é atribuído a Lampião:
Eu me chamo Virgulino
Por alcunha Lampião
Sou cangaceiro afamado
Em todo alto sertão
Não levo em conta inimigo
E não encaro perigo
Estando de arma na mão (Virgulino Ferreira)
Essa imagem heróica de Lampião é retratada em As táticas de guerra dos cangaceiros (1978), de Maria Christina Matta Machado, num típico discurso da geração 68 na Universidade Brasileira mostra um Lampião desde pequeno preocupado com a justiça e como era injustiçado, em sua visão infantil, criou conceitos cada vez mais rígidos contra os potentados coronelistas e mesmo antes da morte de seu pai, já nutria ódio contra aqueles que oprimiam a população campesina, e em particular contra o capitão Lucena que não se contentou em forçar a retirada do seu pai do Pernambuco e contrariando as normas policiais atravessou as fronteiras e matou José Ferreira. A partir daquele instante morreria Virgulino Ferreira e nasceria Lampião (MATTA MACHADO, 1978, ps.22 a 24).
Dessa forma, o mito cooptado pelos escritos marxistas retrata alguém advindo de uma camada pobre da sociedade e que ao se deparar com toda a miséria e a injustiça social resolveu embarcar numa vida de crimes sem volta, se tornando uma espécie de “Robin Hood dos sertões”:
Lampião não pode ser visto como um fato isolado, mas sim como o resultado de uma época em que se processava a luta surda, empreendida pelo vaqueiro contra o senhor da terra. Daí se explica, talvez, a o motivo porque Lampião −uma fera humana segundo a imprensa da época −, era quase que venerado pelas populações mais pobres. Porque o pobre via em sua figura, a auto-afirmação, aquilo que cada um deles gostaria de fazer, mas tinha medo. Os sertanejos tinham o ideal de por um final na tirania dos coronéis e de sua política assassina e cruel: “Depois voltar para casa e viver a vida simples de sertanejo”. (MATTA MACHADO, 1978, p. 6)
Do outro lado, ou seja, o lado daqueles que acreditam que Lampião nada tem a ver com esta imagem "Robin Hood" esta, entre outros, Luitgarde Barros que em Derradeira Gesta, Lampião e Nazareno: Guerreando no Sertão (2007), vai criticar a posição de Maria Cristhina através das seguintes perguntas que não são os melhores indicativos para a repulsa de Lampião pelos potentados: “Porque Lampião procurou sempre acumular fortuna, impor terror, ser respeitado e famoso como os potentados? Por que queria ser “governador do sertão”? O que o fazia fascinado por patentes a ponto de exigir ser tratado por capitão, até o final da vida?” (BARROS, 2000, p. 82).
Para ele, o fato dos nordestinos mais pobres imigrarem para outras regiões se deve muito mais às ameaças de Lampião à sua sobrevivência, do que por causa da seca; posição que encontra eco em Pereira da Silva que na introdução de Lampião e a sociologia do cangaço, apresenta Lampião como possuidor de uma crueldade comparável a Hitler, e passivo de ser classificado, dentro dos quadros da psicopatologia, num quadro de sadismo: “Isto me faz pensar que não há uma só humanidade, mas duas: a do Bem e a do Mal. Felizmente pertencemos a primeira, pois nos repugna praticar semelhantes barbaridades” (PEREIRA da SILVA citado em CARVALHO, s/d., p. VII).
Marcos Barbosa vai transpor essa lendária relação entre Lampião e Maria Bonita para a contemporaneidade, transformando os protagonistas, que dentro do mito do Cangaço, às vezes assumem a posição de assassinos sanguinários, enquanto em outras são tidos como heróis, em um casal discutindo assuntos cotidianos e sonhos.
O autor direciona a platéia para fora da história e traz eventos e temas da peça de acordo com a sua relevância para a realidade de nossa época, retomando a morte dos dois cangaceiros em Angicos, com uma mudança fundamental sobre toda uma concepção ideológica de herói ou bandido, que ainda pode ser observada no filme Lampião, o rei do cangaço (1966) de Carlos Coimbra.
O diretor Amir Haddad traz o texto teatral Auto de Angicos, para o palco com a novidade de apresentar o casal de cangaceiros Lampião e Maria Bonita, longe dos padrões de linguagem e vestimenta estereotipados e que prevaleceram nas mais diversas áreas artísticas.
Assim, nesse sentido Haddad recria o texto de Barbosa, se afastando dos estereótipos de Lampião e Maria Bonita e o re-nomeia de Virgolino e Maria: Auto de Angicos, trazendo para o palco, não apenas a lenda, mas também dois seres humanos tão iguais a tantos outros. Essa concepção estética se afasta não só do filme Lampião, o rei do cangaço que em sua estética dramática busca criar a ilusão da personagem para o público, mas também do Auto de Angicos, que apesar da transposição do mito para a realidade atual efetuada por Barbosa, ainda apresenta uma forte característica dramática que pode ser notada através da sua estrutura dialógica. O trabalho de Haddad vai se tratar da supressão da ilusão dramática e dirigir os atores para uma encenação mais épica, numa estética pós-dramática, que não mais permite que o ator incorpore a personagem, ao mesmo tempo, que denúncia a forma dramática como uma dramaturgia a serviço da ideologia dominante.
Uma das estratégias utilizadas por Haddad para romper com essa perspectiva dramática do texto Auto de Angicos está em evitar o excesso de realismo, não caracterizando as personagens com roupas de cangaceiro ou com características físicas de Maria Bonita e Lampião. Na produção de Haddad, Virgolino é encenado por Marcos Palmeira – que está longe de ter um biótipo nordestino –, sem puxar pela perna e sem o problema do olho vazado, enquanto o papel de Maria, ao invés de ser representado por uma mulher tipicamente nordestina, foi entregue a Adriana Esteves, uma “menina loirinha suburbana ”.
A releitura do mito de Lampião efetuada por Haddad desvela o véu da ilusão proporcionado pelo cinema. Além disso, se conjugam linguagens cênicas em relação de intermidialidade, tais como a música popular, o gestual (junto com a iluminação e o cenário), a arte ritualística como na abertura peça, quando dois contra-regras desempacotam o cenário enquanto cantam a música Acorda Maria Bonita, do cangaceiro Volta Seca, e chamam o público para cantar e acompanhar com palmas a música, mostrando claramente que o espetáculo não vai buscar os recursos da mimesis.
Haddad lembra que, assim como uma mera re-contextualização do texto ou mudança midiática, necessariamente não determina uma abordagem cênica mais contemporânea e como exemplo comenta a respeito da montagem baiana de Auto de Angicos, que se distanciou bastante de uma perspectiva épica, para adotar uma encenação dramática, com as personagens Lampião e Maria Bonita caracterizadas, ou seja, buscando a “personificação” do ator a partir de trajes do cangaço, defeitos físicos de Lampião, e assim por diante. Dessa forma, Haddad, assim como Gatti (citado em SARRAZAC, 2002, p. 34), acredita que é preciso intervir na conversão das formas, pois cada assunto tem uma teatralidade que lhe é própria.
Haddad afirma ainda em sua entrevista, que evitou a todo custo o “diálogo realista”, buscando exprimir melhor a densidade de sentimentos que move os personagens e, sobretudo, valorizar a corpo, o movimento livre dos atores sem marcações, assim como no seu teatro de rua. “Seja num ambiente fechado ou de rua, o espetáculo tem que proporcionar uma verdade para cada um dos espectadores que deve ser apresentada nua e crua, e não colocada como uma essência que poucos poderão atingir”.
Dessa forma, Haddad se afasta da característica “nordestern” de Lampião, que traz implicitamente uma justificativa para a violência da personagem, como num dos hipotextos de Lampião, o rei do cangaço, o romance Lampião: Capitão Virgulino Ferreira (1975) de Nertan Macedo que, como já vimos, descreve o cangaceiro, como alguém de índole boa, que somente depois de ter algum ente querido morto, resolve fazer a justiça com as próprias mãos.
Dessa forma, longe de adotar uma posição nesta dicotomia “positivista” entre o bem e o mal, o texto de Barbosa não caracteriza Lampião nem como uma simples vítima da miséria e da injustiça social, nem como uma pessoa portadora de uma violência impar e sem sentido, como aparece na passagem que Maria Bonita lembra de um homem que Lampião matou:
MARIA. Amarrar o miserável do barbudo num poste e arrancar os olho dele a faca com as criança tudo vendo. Sangue espirrando pra todo lado... Não precisava daquilo não.
VIRGOLINO. Era o castigo dele.
MARIA. Castigo dele era morrer. Pronto. Não tinha que arrancar os olho do homem, ele ainda vivo, gritando, não. Depois ainda estourou a bala os dois olho largado no chão... Pra quê?
VIRGOLINO. É para dar o exemplo do traidor. Os outro sertão afora escuta que eu fiz aquilo, já não me trai mais.
MARIA. Tanto que eu pedi pra tu parar.
VIRGOLINO. Se eu for parar toda vez que tu pede...(BARBOSA, 2006 , p.23)
Essa passagem parece estar de acordo com o livro Pelo espaço do cangaceiro, Jurubeba, de Arthur Shaker, em que o próprio cangaceiro conta:
[...] que muitos gostavam dos cangaceiros, mas muitos não gostavam. E aqueles que não gostavam, queriam é acabar com a nação dos cangaceiros [...] todo mundo tinha medo de cangaceiro, eu mesmo tinha medo. [...] Saia a noticia que Lampião passou matando, roubando, tudo o que é ruim. Então a gente assustava, não tinha quem não tinha medo. (SHAKER citado em BARROS, 2000, p. 143)
Nessa passagem parece residir uma boa parte da busca de Barbosa em sua obra, em mostrar não só a discussão de um casal, mas também o medo como forma de controle e de poder, pois assim como conceitua o antropólogo Michael Taussig, em seu conceito de “espaço da morte”, mais do que uma violência gratuita, a violência se dá no jogo pelo poder:
O assassinato, a tortura e a feitiçaria são tão reais quanto a morte. O tema não trata da verdade do ser, mas o ser social da verdade. Não é verificar se os fatos são reais, mas a política de sua interpretação e representação. A enorme energia da historia confinada no “era uma vez”. A história que mostrava as coisas como elas “realmente eram” revelou-se o narcótico mais forte do nosso século (Benjamin). (TAUSSIG, 1993, p.15)
Taussig lembra que o processo de pensar gera novos começos, retornando a seu objeto original seguindo uma rota sinuosa, sendo que uma das características do terror é a inefabilidade, pois, à medida que não se consegue com palavras construir uma narrativa para esta sensação, o homem começa a imaginar, a construir alegorias. Taussig conceitua o “espaço da morte” como uma importante criação do significado e da consciência em sociedades onde a cultura do terror floresce. Quem está para morrer nas mãos do algoz, não acontece só fora do individuo , acontece dentro, criando uma ambiência para o leitor (TAUSSIG, 1993, p. 19-25).
Dessa forma, as culturas do terror são nutridas pela trama formada entre o silêncio e o mito, a ênfase do lado misterioso esta no rumor finamente tecido em teias de realismo mágico, fazendo com que Lampião consiga a pilhagem de alguns povoados, sem sequer precisar se utilizar da violência.
As atrocidades que Lampião efetuou, tais como: cortar "sangrar" as pessoas através de longos punhais enfiados corpo adentro entre a clavícula e o pescoço, a marcação de rostos de mulheres com ferro quente, o arrancar de olhos, o “cortar” de orelhas e línguas, e a castração de inimigos, tinha como propósito a criação do “espaço da morte”, como forma de impingir um temor mental agudo e grande parte da agonia física da morte, numa íntima dependência mútua entre a verdade e a ilusão e entre o mito e a realidade; tudo isto relacionado com o metabolismo do poder, para não falar da “verdade”:
Cruzar os dados relativos à verdade, nesse campo, é algo necessário, e é necessariamente uma tarefa de Sísifo, que ratifica uma objetividade ilusória, uma objetividade sujeita ao poder que, ao autorizar a cisão entre a verdade e a ficção, assegura o fabuloso alcance desse mesmo poder. A alternativa é ouvir essas histórias não como uma ficção ou como sinais disfarçados da verdade, mas como algo real. (TAUSSIG, 1993, p. 87)
No entanto, mesmo com a explicação antropológica para o uso da violência, Barbosa continua a evitar sentenciar moralmente Lampião, pois junta a toda essa violência uma faceta humana, ao mostrar o ambiente familiar entre os cangaceiros que riem, brincam, se divertem, cozinham, comem, lêem, dançam, fazem vaquejadas, bebem água como pessoas normais, tal como na passagem que Maria sugere uma festa para Lampião:
MARIA. É só pra animar. Pra tu não ficar desse jeito. Gosto de ver tu assim não.
VIRGOLINO. Depois nós conversa.
MARIA. Tu fala com Pedro de Cândido, manda arranjar um sanfoneiro.
VIRGOLINO. Sanfoneiro?
MARIA. Não pode não?
VIRGOLINO. É festa grande que tu está querendo, é?
MARIA. Grande, não. Festa pouca. Agora, custa arranjar um sanfoneiro? Melhor que ficar batendo forró em argola de fuzil.
Virgolino, brincando, levanta seu Mauser e procura a argola.[...]
VIRGOLINO. Olê, muié rendeira. Olê, muié rendá. Tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar/ (BARBOSA, 2006, p. 9)
Assim, Haddad, ao trazer momentos da intimidade do casal ao palco evita a perspectiva de uma configuração extremada entre o bom e o ruim, e a partir da constatação do caráter multifacetado do homem conceituado por Hall, faz a relação dicotômica entre o bem e o mal ficar mais porosa, e se aproximar da posição do filosofo alemão Friedrich Nietzsche que em Para além do bem e mal, examina civilizações de épocas passadas, depreendendo certos traços que são justamente distintos, que culminam em dois tipos fundamentais de moral, mas que não são mutuamente exclusivas, pois se mesclam até mesmo no interior de uma única alma humana:
Acrescento desde logo que, em todas as civilizações superiores e mais mistas, entram também em cena ensaios de mediação entre ambas as morais, e ainda mais freqüentemente a mescla de ambas e o recíproco mal-entendido, e até mesmo, às vezes, seu duro “lado a lado” – até no mesmo homem, no interior de uma única alma. (NIETZSCHE, 1981, p. 215)
Para Nietzsche, o escravo, o ressentido, o fraco, concebe primeiro a idéia de “mau”, com que designa os nobres, os mais fortes do que ele – e então, a partir dessa idéia, conclui, através da antítese, a concepção de “bom”, que se atribui a si mesmo. O forte, por sua vez, concebe espontaneamente o principio “bom” a partir de si mesmo e só depois cria a idéia de “ruim” como “uma pálida imagem-contraste”. Do ponto de vista do forte, “ruim” é apenas uma criação secundária, enquanto para o fraco “mau” é a criação primeira, o ato fundador de sua moral.
Assim, podemos dividir a abordagem do tema Lampião a partir de dois grandes grupos: A partir da impossibilidade da convivência entre o bem e o mau, como podemos perceber em Lampião; ou conforme Nietzsche, como uma questão perspectiva, que é mostrada em Virgolino. No espetáculo de Haddad, esse novo circuito de sentido é o próprio contexto teatral contemporâneo, que afrouxa as amarras do teatro dramático de sentido único, um teatro que institui determinadas verdades que não possibilitam qualquer tipo de reflexão e que não proporciona as mínimas condições e perspectivas de mudança.
Enfim, assim como Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas:
Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio de São Francisco – que de tão grande se comparece – parece é um pau grosso, em pé, enorme... Amável o senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.(ROSA, 2009, p. 608)
Ou ainda conforme a musica de Sergio Ricardo e Glauber Rocha em Deus e o diabo na terra do sol, que dentro de uma ideologia marxista, fecha a questão:
Tá contada a minha historia
Verdade, imaginação
Espero que o senhor tenha tirado uma lição
Que assim mal dividido
Este mundo anda errado
Que a terra é do homem
Não é de Deus, nem do diabo. (ROCHA, 1964)
REFERÊNCIAS
BARBOSA, Marcos. Auto de Angicos. Texto não publicado. s/d.
BARROS, Luitgarde O. C. Derradeira Gesta, Lampião e Nazareno: Guerreando no Sertão. Rio de Janeiro: Mauad, 2000.
CARVALHO, Rodrigues de. Lampião e a sociologia do cangaço. Rio de Janeiro: Editora do livro, s/d.
COIMBRA, Carlos. Lampião, o rei do sertão. São Paulo: Cinearte Produções Cinematográficas, 1962.
FERREIRA, Vera e AMAURY, Antonio. De Virgolino a Lampião. São Paulo; Idéia Visual, 1999.
GUIMARÃES ROSA, João. Grande Sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2008.
IACOCCA, Liliana e CAMPOS, Rosinha. Lampião e Maria Bonita: o Rei e a Rainha do Cangaço. São Paulo: Ática, 2005.
LEHMANN, Hans-Thies. Teatro pós-dramático. Trad. Pedro Süssekind. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
MACEDO, Nertan. Lampião: Capitão Virgulino Ferreira. Rio de Janeiro: Renes, 1975.
MACHADO, Maria Christina Matta Machado.As táticas de guerra dos cangaceiros. São Paulo: Brasiliense, 1978.
NIETZSCHE, Friedrich. Para além do bem e do mal. São Paulo: Hemus, 1981.
OLINTO, Heidrun. Literatura e mídia. Rio de Janeiro: Puc, 2009.
ROCHA, Glauber. Deus e o diabo na terra do sol. 1966.
SARRAZAC, Jean-Pierre. O futuro do drama: Escritas dramáticas contemporâneas. Trad. Alexandra Moreira da Silva. Porto: Campo das Letras, 2002.
TAUSSIG, Michael.Xamanismo, colonialismo e o homem selvagem. Trad. Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Paz e terra, 1993.
Assinar:
Postagens (Atom)
